19 de jan. de 2013

O Tempo in Lavoura Arcaica - Raduan Nassar

Em busca de uma ‘ordem própria’ André transgride, ao contrapor a ordem do pai e o caos da mãe, a inflexibilidade paterna diante do afeto materno, a razão e a paixão, tristeza e alegria, claro e escuro, público e privado, sagrado e profano, amor e cólera, família e natureza, arrependimento e esperança, galho da direita “desenvolvimento espontâneo do tronco” e galho da esquerda “estigma de uma cicatriz”. É a dualidade presente. É a tragédia. O livro é belíssimo o filme é singular. 

Uma frase que destaco: “estamos indo sempre para casa”.

Um capítulo que destaco: 9 - Raduan Nassar
“Que rostos mais coalhados, nossos rostos adolescentes em volta daquela mesa: o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra sua ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos distraindo tanto como os sinos graves marcando as horas: ”O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terra largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa; e ninguém em nossa casa há de colocar nunca o carro à frente dos bois: colocar o carro à frente dos bois é o mesmo que retirar a quantidade de tempo que um empreendimento exige; e ninguém ainda em nossa casa há de começar nunca as coisas pelo teto: começar as coisas pelo teto é o mesmo que eliminar o tempo que se levaria para erguer os alicerces e as paredes de uma casa; aquele que exorbita no uso do tempo, precipitando-se de modo afoito, cheio de pressa e ansiedade, não será jamais recompensado, pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia; mas fica a salvo do malogro e livre da decepção quem alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção ágil ao mais sutil desnível; são sábias as mãos rudes do peixeiro pesando sua pesca de cheiro forte: firmes, controladas, arrancam de dois pratos pendentes, através do cálculo conciso, o repouso absoluto, a imobilidade e sua perfeição; só chega a este raro resultado aquele que não deixa que um tremor maligno tome conta de suas mãos, e nem que esse tremor suba corrompendo a santa força dos braços, e nem circule e se estenda pelas áreas limpas do corpo, e nem intumesça de pestilências a cabeça, cobrindo os olhos de alvoroço e muitas trevas; não é na bigorna que calçamos os estribos, nem é inflamável a fibra com que tecemos as tranças de nossas rédeas, pode responder a que parte vai quem monta, por que é célere, um potro xucro? o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, e nenhum entre nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e recriar o tempo; não se profana impunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo; ai daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhe turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro, afinal, que força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua poeira? é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há de cruzar os brancos quando existe o irmão para socorrer; caprichoso como uma criança, não se deve contudo retrair-se no trato do tempo, bastando que sejamos humildes e dóceis diante de sua vontade, abstendo-nos de agir quando ele exigir de nós a contemplação, e só agirmos quando ele exigir de nós a ação, que o tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens triste, o consolo aos desamparado, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranquilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; é através da paciência que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal, inesgotável, sorvendo até a exaustão o caldo contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos, construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um reino penoso de expectativas e suas dores; na doçura da velhice está a sabedoria, e, nesta mesa, na cadeira vazia da outra cabeceira, está o exemplo: é na memória do avô que dormem nossas raízes, no ancião que se alimentava de água e sal para nos prover de um verbo limpo, no ancião cujo asseio mineral do pensamento não se perturbava nunca com as convulsões da natureza; nenhum entre nós há de apagar da memória a formosa senilidade dos seus traços; nenhum entre nós há de apagar da memória sua descarnada discrição ao ruminar o tempo em suas andanças pela casa; nenhum entre nós há de apagar da memória suas delicadas botinas de pelica, o ranger das tábuas nos corredores, menos ainda os passos compassados, vagarosos, que só se detinham quando o avô, com dois dedos no bolso do colete, puxava suavemente o relógio até a palma, deitando, como quem ergue uma prece, o olhar calmo sobre as horas; cultivada com zelo pelos nossos ancestrais, a paciência há de ser a primeira lei desta casa, a viga austera que faz o suporte das nossas adversidades e o suporte das nossas esperas, por isso é que digo que não há lugar para a blasfêmia em nossa casa, nem pelo dia feliz que custa a vir, nem pelo dia funesto que súbito se precipita, nem pelas chuvas que tardam mas sempre vêm, nem pelas secas bravas que incendeiam nossas colheitas; não haverá blasfêmia por ocasião de outros reveses, se as crias não vingam, se a rês definha, se os ovos goram, se os frutos mirram, se a terra lerda, se a semente não germina, se as espigas não embucham, se o cacho tomba, se o milho não grana, se os grãos caruncham, se a lavoura pragueja, se se fazem pecas as plantações, se desabam sobre os campos as nuvens vorazes dos gafanhotos, se raiva a tempestade devastadora sobre o trabalho da família; e quando acontece um dia de um sopro pestilento, vazando nossos limites tão bem vedados, chegar até as cercanias da moradia, insinuando-se sorrateiramente pelas frestas das nossas portas e janelas, alcançando um membro desprevenido da família, mão alguma em nossa casa há de fechar-se em punho contra o irmão acometido: os olhos de cada um, mais doces do que alguma vez já foram, serão para o irmão exasperado, e a mão benigna de cada um será para este irmão que necessita dela, e o olfato de cada um será para respirar, deste irmão, seu cheiro virulento, e a brandura do coração de cada um, para ungir sua ferida, e os lábios para beijar ternamente seus cabelos transtornados, que o amor na família é a suprema forma da paciência; o pai e a mãe, os pais e os filhos, o irmão e a irmã: na união da família está o acabamento dos nossos princípios; e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhes amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como são se questionam aos puros planos das planícies as trilhas tortuosas, debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao cocho, o gado sempre vai ao poço; hão de ser esses, no seu fundamento, os modos da família: baldrames bem travados, paredes bem amarradas, um teto bem suportado; a paciência é a virtude das virtudes, não é sábio quem desespera, é insensato quem não se submete.” E o pai à cabeceira fez a pausa de costume, curta, densa, para que medíssemos em silêncio a majestade rústica da sua postura: o peito de madeira debaixo de um algodão grosso e limpo, o pescoço sólido sustentando uma cabeça grave, e as mãos de dorso largo prendendo firmes a quina da mesa como se prendessem a barra de um púlpito; e aproximando depois o bico de luz que deitava um lastro de cobre mais intenso em sua testa, e abrindo com os dedos maciços a velha brochura, onde ele, numa caligrafia grande, angulosa, dura, trazia textos compilados, o pai, ao ler, não perdia nunca a solenidade: “Era uma vez um faminto.”
                                                                                                                                    (Lavoura Arcaica)

1 de jan. de 2013

Imagens de Pelotas - dezembro de 2012




Escola São Francisco de Assis (cursei Ensino Fundamental-séries finais e Ensino Médio)
No calçadão
A porta do paraíso: BPP

"As Nereidas", na Praça Coronel Pedro Osório

Lavoura arcaica

"Toda a ordem traz uma semente de desordem e a clareza uma semente de obscuridade."
"A vítima ruidosa que aprova o seu opressor se faz duas vezes prisioneira."
"...Só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas".  
"Estamos indo sempre para a casa".

28 de dez. de 2012

Prova de Fogo

Hoje termino a leitura do livro "As consolações da filosofia", de Alain de Boton.
Hoje tive uma visão preconceituosa de Schopenhauer.
Hoje conversei com o ET de Varginha. 
Hoje tem formatura do 3º ano/noite da Escola Rosário.
Hoje revi processos, relatórios, e-mails e decidi emagrecer.
Hoje lembrei da seguinte frase, que garimpei, copiei e colei:

"Nosso medo mais profundo não é o de não sermos bons o suficiente.
Nosso medo mais profundo é o de sermos poderosos além das medidas.
Por isso nos perguntamos quem somos para nos considerar brilhantes, maravilhosos, talentosos e fabulosos.
Na verdade quem não somos.
Estamos todos aqui para irradiar como fazem as crianças. E a medida em que deixamos a nossa luz brilhar inconscientemente damos aos outros permissão para que brilhem também." Citação do filme Prova de Fogo, originalmente atribuída a Nelson Mandela.

27 de dez. de 2012

do Boletim SAB Informativo 34

Periódicos online - Biblioteconomia, Ciência da Informação, Arquivologia

14 de dez. de 2012

Sou a que procura lacunas

Não perguntei de onde vinhas ou para onde irias,
Se tinhas muitas coisas, ou nada podias ter,
Só ousei um dia estar e entrar nas lacunas do teu ser.

13 de out. de 2012

Feriado

Feriado, folhei, folhas, fervorosamente.
Fiz fotos fenomenais.
Feito feitiço, fiquei fechada, fundindo-me.
Fecho Face&book.
Felizmente, faço final feliz.


Li:
AMÂNCIO, Edson. Diário de um médico louco. Taubaté: LetraSelvagem, 2012. 151 p.
MACEDO, José Rivair; MAESTRI, Mário. Belo Monte: uma história da guerra de Canudos. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011. 196 p.
DE ASSIS, Machado. Correspondência. Porto Alegre: Pradense, 2011.
OKSALA, Johanna. Como ler Foucault. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. 141 p.


Assisti:

Koyaanisqatsi
Biblioteca Mindlin
Instintos

Postei um vídeo no Youtube:
Petry, Cassionei Niches. Arranhões e outras feridas. Rio de Janeiro: MultiFoco, 2012.
Rebi um e-mail - The YouTube Team : Congratulations, Jorcenita Alves! With your first video now uploaded, you're ready to go even deeper into the YouTube experience. Here are some tips to help get you started.

Meu desempenho é melhor quando não estou sendo filmada, mas, fica registrado aí meu primeiro vídeo.

"Um modo de contestar o poder normalizador é moldar criativamente a si mesmo e à própria vida: explorando oportunidades de novas maneiras de ser, novos campos de experiência, prazeres, relações, modos de viver e pensar." Oksala, Johanna.
1 moDo de Vida sinGular, a vIda cOmo uMa oBra dE aRte.

9 de out. de 2012

Diário de um médico louco

Estou lendo "Diário de um médico louco", de Edson Amâncio.
Excelente livro, escrita vigorosa, leitura envolvente, história cativante, suspense constante.

"É preciso arranjar um sentido para a vida. A vida não tem nenhum sentido. A cada um o seu quinhão! Começo o dia com essa proposição filosófica; não sem razão. Outro dia alguém me disse: "Chorar e sofrer ainda é viver".
Desconfio disso. Pareceu-me Dostoiévski, mas posso estar enganado. Não tenho como saber. Embora goste dos russos, tenho motivos de sobra para desconfiar deles. E muito! Gostar e desconfiar! Os dois sentimentos simultâneos. Como vocês verão, mais tarde. Na verdade tenho baixa tolerância para certa espécie de escritores: autores de autoajuda. Abusam do desespero dos outros. Os outros (somos nós) querem se agarrar em alguma coisa. Depois apregoam filosofia de botequim e me dizem: "Case! Tenha filhos, depois netos! Aí você vai ver o sentido da vida". A vida é isso mesmo. Não há solução para coisa alguma. Ninguém se desvencilha do abismo! Ninguém emerge de lá. É só um mergulhar. É só um afundar. Digo que a vida é isso e acabou. Eis aí minha filosofia." (Amâncio, Edson. Diário de um médico louco).

Na página 32, o médico propõe regras para terminar de escrever o diário e também ler os livros da estante na ordem em que estão colocados. Descrevo algumas:
-Esquecer obrigações impostas dentro de casa, como: comprar pão na padaria, atender ao telefone, etc.;
-Banhos semanais rápidos;
-Não fazer barba nem cabelo.

O autor faz referências a Thekhov, Mayakovsky, Bach, tem um encontro surreal com Gógol e Dostoiévski. E muito mais. Tem até diabo intelectual, que cita em latim (Terencio ou Nietzsche), e o demônio, apesar de tudo, não faz propostas indecorosas, do tipo 'vote em mim nas próximas eleições'.

"Afinal, o que é importante nisso tudo? A estratégida do crime, o resultado da ação delituosa bem planejada ou as consequências dela?" p. 82. O personagem fica na dúvida entre matar um velho para roubar ou evitar tal atitude, em uma clara alusão ao neo-Raskolnikov, personagem do livro Crime e Castigo de Dostoiévski.

É um dos melhores livros que li nos últimos dias. Fica aqui a dica.

"...bati-o violentamente no ladrilho. Nada! O rato, agora meio amassado, continuava com os dentes cravados no meu indicador. Oh! O horror! O que não faz o homem no auge do desespero! Não tive tempo para raciocinar. A dor e o ódio embotaram os últimos traços de humanidade que havia em mim. Levantei-o até à altura da minha boca e dei-lhe uma mordida na cabeça, esmagando o seu crânio como se fosse uma cobertura crocante de alguma sobremesa." p.126/7

2 de out. de 2012

Córtex visual

O

r
e
l
â
m
pago
apagou meu olhar,
+ foi incapaz de cortar,
sequer ofuscar o brilho
 de sua presença em mim.

28 de set. de 2012

Sobre sabores e dissabores

Aproveito para postar aqui, enquanto há algum tempo e enquanto eu tiver forças; não tardará muito que minhas forças se vão e fique só um espectro de vontade e o tempo se dilua sem que eu perceba e fique só um rastro de memória. Após decidir viver minha vida no melhor dos mundos possíveis, para atenuar sofrimentos d'alma e as arestas da falta de calma, volto-me para um cotidiano necessário que é imprenscindível para viver: a saber, a comida.
A partir deste mês, setembro de 2012, uma vez por mês passearemos por restaurantes, lancherias, bares, balcões, botecos e o que mais aprouver, da mais alta gastronomia da cidade à mais popular, a fim de simplesmente comer, porque, como já citei, comer é também necessário para viver.
Viveremos no melhor dos mundos, andaremos nos mais variados lugares, saborearemos os mais diversos cardápios, sentiremos os mais profundos odores, saborearemos os mais diversos condimentos, admiraremos sempre a beleza das refeições e comer,...comer terá outros significados. A ideia de comer fora, será a desculpa para nos reunirmos, nos congregarmos, nos irmanarmos, nos agregarmos e compartilharmos experiências e vivências significativas para nós. Será um encontro de estômagos e de almas sedentas por algo mais, seja a comida para nutrir o corpo, ou a conversa para nutrir o espírito.
Com uma escrita nem tão rigorosa, nem tampouco casual, procurarei assentar aqui, minhas impressões "gastrocômicas".
Foi no dia 28 de setembro de 2012. O dia estava claro e um sol irradiava por toda cidade. Estavam eu, mais Angela, Lucênia e Luciana Ledur. O local escolhido foi o Shopping Santa Cruz.
Foi uma refeição colorida, leve e saborosa. Enquanto a Angela e a Lucênia preferiram apreciar os Sabores, eu e a Luciana, por estarmos famintas, optamos pelo Guloso.

26 de set. de 2012

Carta à uma amiga



Minha cara amiga.
Não se admire se algumas palavras se repetirem nesta carta, tal é a confusão do meu espírito. Quero que sejas a primeira a saber da novidade:  estou cursando Filosofia na Unisc. Entrei no curso de Filosofia meio que fortuitamente. Em maio do corrente ano, recebi, por e-mail, informações sobre o Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica – PARFOR. Fiquei deveras eufórica e, tomada de êxtase, corri ao Departamento, fiz ligações para a PROGRAD, falei com a 6ªCRE, a fim de obter maiores esclarecimentos sobre o curso. Frustrada, recebi a informação de que se tratava de um curso presencial e de Graduação. No ímpeto em buscar maiores conhecimentos e subsídios para enriquecer as aulas de Filosofia, julguei ter lido “Curso de atualização” e não “Curso de Graduação”. É de seu conhecimento que tenho uma super carga horária (12 horas diárias) e as aulas presenciais inviabilizariam minha participação. Por fim, acabei me inscrevendo no curso devido ao baixo número de inscritos, inicialmente. Havia combinado com a coordenação do curso que, tão logo ele fosse aprovado pela CAPES/MEC, cancelaria minha inscrição. Entretanto, após ler meu nome na lista dos selecionados e ter feito a matrícula, não ousei cancelar minha inscrição. Estou fazendo agora a 2ª disciplina e disposta, minha querida amiga, a ir até o fim do curso. Claro que estou contando com a colaboração dos professores no que diz respeito a faltas, pois não poderei participar das aulas nas sextas-feiras, e participarei todos os finais de semana em que não estiver escalada na Biblioteca da Unisc, na qual trabalho como Bibliotecária de Periódicos. Você me conhece de longa data e sabe da minha predileção pelo conhecimento em geral e pela Filosofia em particular. Lembra de como gostava de participar dos eventos da Filosofia, sempre que possível? Lembra que falava com você em como adorava a professora Suzana Albornoz? Você lembra também do curso de “Filosofia e Felicidade” de que participei? Eu metida no meio de filósofos, professores e alunos? Lembra que quando me visitava eu socializava com você minhas impressões? Pois é, a vida dá voltas, não é mesmo? E agora, cá estou, realizando este curso que espero me ajude a desbravar os caminhos obscuros e misteriosos da vida. Veja, alguns fatores que endossaram minha decisão:
- trabalho com a disciplina de Filosofia em sala de aula e não tenho a formação necessária, como você sabe, sou Licenciada em História pela UFPel e Bacharel em Biblioteconomia pela FURG;
- o curso é totalmente gratuito;
- tenho disposição para aprender, apesar da pouca disponibilidade de tempo;
- meu dever enquanto educadora é procurar estar melhor preparada para ousar ensinar, vencendo inicialmente minha própria ignorância.
Meu espírito esperou pacientemente por este momento, vigiando sobre meu corpo, que, cada vez mais enrijecido, começa a movimentar-se agora com as vibrações dos filósofos e a amizade que tenho pelo saber. Gerbi destaca que, para Hegel (apud Mozart Linhares da Silva), “Os animais dormem por instinto; os selvagens repousam à noite; apenas o Espírito faz da noite dia”.
Espero que, ao final, as faltas nas noites de sextas-feiras sejam compensadas com a dedicação dos outros dias, que o espírito reine sobre a carne e que Ariel vença Caliban.
Um abraço, minha amiga. Crer na Filosofia e na arte de duvidar e fazer perguntas é uma das melhores coisas da vida. Creiamos, pois.
Jorcenita Alves

Revisão S. R. Tornquist

21 de set. de 2012

Há 13 anos

Faz 13 anos que aqui estou,
cidade de Santa Cruz.
Para Pelotas eventualmente vou,
mas retorno agora sem velas, nem cruz.

Fiz História,
mas vim pela Biblioteconomia.
Faço Filosofia,
mas ficarei entre livros.

Minha sina é estar em Bibliotecas,
seja em Pelotas, na Pública Pelotense,
ou na de caráter público Santa-cruzense.

A Unisc tem sido meu segundo lar,
Uma Universidade boa para estudar
e boa para trabalhar.

17 de set. de 2012

Frases de Pepetela

Enquanto lia, anotava o que segue:

"A cabeça cresce com as verdades que nela entram." Pepetela

"Faltando a coragem de nos mirarmos
Medo de nos derretermos.
Assim é o amor." Pepetela, p.51.

"Alguém sabe mesmo o que amor é?
Pobre é o amor
Que pode ser contado" William Shakespeare

"Todos se sentiam úteis,
sem noção de serem quase inúteis.
Gente feliz, portanto." Pepetela, p.73.

"É na capacidade de perder
e mesmo assim lutar
que está a grandeza." Pepetela, p.94.

"Nunca se sabe responder
à questão da definitude,
eis o Homem." Pepetela, p.106.

"A onça deixada pra trás no nosso trajeto de humanização nunca se dilui completamente dentro de nós, por muitos livros lidos, viagens feitas ou debates intelectuais participados. Existe sempre uma unha ou dente de onça que se manifesta quando a ocasião é propícia. Somos considerados civilizados se somos capazes de o esconder sempre do conhecimento dos outros. Mas exsite todavia um pedaço selvagem permanecendo de atalaia. E ao menor pretexto damos o bote. Somos de uma humanidade animal." Pepetela, p.121.

"De fato nunca se matam realmente saudades, é apenas uma forma de dizer." Pepetela, p.144.

12 de set. de 2012

Dormindo com filósofos

Hoje, aproveitarei que meu marido foi viajar e dormirei com filósofos.
Venha, Arquíloco!
Entrai pelas minhas portas, Teógnis!
Seja bem-vindo, Píndaro!

Venham todos ao meu humilde lar, pois quero ouvi-los, secretamente.
***
O silêncio deles é alarmante,
(as imagens, estarrecedoras,
um cheiro de ácido oleico)
uma poeira entra por minhas narinas.
Não consigo parar de tossir.
O pó fica impregnado no ambiente,
as palavras saltam num silêncio cortante:

"E não te esqueças, meu coração,
que as coisas humanas apenas
mudanças incertas são." Arquíloco

"Choremos a juventude e a velhice também,
pois a primeira foge e a segunda sempre vem." Teógnis

"A glória dos mortais num só dia cresce,
Mas basta um só dia, contrário e funesto,
para que o destino, impiedoso, num gesto
a lance por terra e ela, súbito, fenece." Píndaro
***
Não ficaram comigo muito tempo, pois furtivamente,
sem a menor cerimônia, mesmo não acessando mais
regularmente o Orkut, escapei num átimo para o Facebook.
***
Ficaram chocados, estavam indo embora,
cabisbaixos, em linha reta andando,
quando ouviram um poeta brasileiro
andando em círculos e lamentando...

"Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho
.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.

Como a vida é forte
em suas algemas
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.

Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.

Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!"

Carlos Drummond 

No final, tudo se tranformará em pó, eles e eu.
só as palavras cortarão o silêncio cortante.

11 de set. de 2012

AME

GgRitEe verdades com Gragântua
Descarte velhas ideias com Descartes
Conte causos ou Contos gauchescos, ou
Lendas do sul.
Mas AME, principalmente
ame
com
Amado

9 de set. de 2012

O liberdade

Retornando a Pelotas, vou procurar "O Liberdade",
E o dono do local, com toda a simplicidade,
lembra do meu avô e dos tempos da mocidade.


Fala do meu tio Nelson,
pois é seu afilhado, desde quando pequeno.

***

Já posso cantar "Boemia",
pois regressarei de onde já fui,
e voltarei ao reduto do choro
e ao restaurante popular,
quando à cidade, eu voltar.


Em Pelotas, há quase 40 anos, se apresenta o grupo de choro Avendano Jr. e o Regional.
De noite, reduto do choro. De dia, restaurante popular.

4 de set. de 2012

... ou "Olhar"

Rios descem no meu ser
sinto-me inundada
rios que não molham
águas que não escorregam
rio que fica PuLsando
no r-i-t-m-o do coração
à espera de uma fricção.

21 de ago. de 2012

Pausa no Blog

Talvez meu blog fique desativado por alguns meses, por falta de tempo. Além das habituais 60horas diárias na Biblioteca e na Escola, do Sl&l que me sugestiona livros e mais livros que enaltecem minha alma; das aulas de português que estou adorando e iluminam meu saber; sou aluna do curso de Filosofia/Parfor/Unisc/Capes que certamente formará melhor a minha consciência moral que se perde Nas estradaS da vida.

"O sábio pode andar por toda a Terra pois a pátria de uma alma boa é o mundo inteiro". Demócrito

15 de ago. de 2012

Garota do Trombone

Hoje, quase que o Zé fica internado no Hospital Santa Cruz, exames, raio-X, ecografia detectaram possibilidade de apendicite aguda. Como são apenas possibilidades... ele retornou para casa.
Enquanto ele descansa, 'dormindo o sono dos justos', eu termino de ler "A garota do trombone", estou muito cansada. Estou em férias, mas particularmente hoje, foi um dia de cansaços e de atrasos para mim.

"As horas não têm a menor importância. A gente sempre chega tarde ao que realmente tem importância." (Skarmeta, 2003, p.55).

"Uma espécide de suspiro profundo me acalmava e me proibia de chorar. Na época, eu não conhecia as palavras para descrever exatamente esse suspiro. Mas agora sei dizer que o que eu sentia dentro de mim era o grande nada: a presença de uma distância que fere todas as coisas quando falta o sentido e o fundamento." (Skarmeta, 2003, p.65).


"Você já reparou que existem na vida pessoas que carecem de acentos? [...] Tão previsíveis como as fases da lua, cem por cento constantes."  (Skarmeta, 2003, p.160).
"O homem esticou a vara de seu trombone até o limite, e de um salto que eu diria angelical a menina dependurou-se no instrumento, e balançando-se feito uma trapezista mandou , com um gesto, que o homem começasse a tocar." (Skarmeta, 2003, p.9).

A 'garota do trombone' é continuação de 'As bodas do poeta', narrativa que conta a partida do clã da costa da Malícia, em direção à América durante a Guerra.

12 de ago. de 2012

Férias de inverno

São 17h22 de 12 de agosto de 2012.
Acabo de ler o seguinte livro:
 

SCHEIBLER, Marcio Vinicius. Irresistivelmente fatal. Santa Cruz do Sul: Zum, 2010. 168 p.

Ontem, dia 11 de agosto, depois de mais uma edição do Sl&l, fomos ao cinema assitir "On the road".

"O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação


o peso
o peso que carregamos
é o amor

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca o corpo,
em pensamentos
constrói um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano

sai para fora do coração
ardente de pureza

pois o fardo da vida
é o amor." Allen Ginsberg

Enquanto o Zé assiste o jogo, no entardecer deste final de semana que antecede minhas férias, continuarei a leitura inacabada d' "A garota do trombone."