9 de out de 2012

Diário de um médico louco

Estou lendo "Diário de um médico louco", de Edson Amâncio.
Excelente livro, escrita vigorosa, leitura envolvente, história cativante, suspense constante.

"É preciso arranjar um sentido para a vida. A vida não tem nenhum sentido. A cada um o seu quinhão! Começo o dia com essa proposição filosófica; não sem razão. Outro dia alguém me disse: "Chorar e sofrer ainda é viver".
Desconfio disso. Pareceu-me Dostoiévski, mas posso estar enganado. Não tenho como saber. Embora goste dos russos, tenho motivos de sobra para desconfiar deles. E muito! Gostar e desconfiar! Os dois sentimentos simultâneos. Como vocês verão, mais tarde. Na verdade tenho baixa tolerância para certa espécie de escritores: autores de autoajuda. Abusam do desespero dos outros. Os outros (somos nós) querem se agarrar em alguma coisa. Depois apregoam filosofia de botequim e me dizem: "Case! Tenha filhos, depois netos! Aí você vai ver o sentido da vida". A vida é isso mesmo. Não há solução para coisa alguma. Ninguém se desvencilha do abismo! Ninguém emerge de lá. É só um mergulhar. É só um afundar. Digo que a vida é isso e acabou. Eis aí minha filosofia." (Amâncio, Edson. Diário de um médico louco).

Na página 32, o médico propõe regras para terminar de escrever o diário e também ler os livros da estante na ordem em que estão colocados. Descrevo algumas:
-Esquecer obrigações impostas dentro de casa, como: comprar pão na padaria, atender ao telefone, etc.;
-Banhos semanais rápidos;
-Não fazer barba nem cabelo.

O autor faz referências a Thekhov, Mayakovsky, Bach, tem um encontro surreal com Gógol e Dostoiévski. E muito mais. Tem até diabo intelectual, que cita em latim (Terencio ou Nietzsche), e o demônio, apesar de tudo, não faz propostas indecorosas, do tipo 'vote em mim nas próximas eleições'.

"Afinal, o que é importante nisso tudo? A estratégida do crime, o resultado da ação delituosa bem planejada ou as consequências dela?" p. 82. O personagem fica na dúvida entre matar um velho para roubar ou evitar tal atitude, em uma clara alusão ao neo-Raskolnikov, personagem do livro Crime e Castigo de Dostoiévski.

É um dos melhores livros que li nos últimos dias. Fica aqui a dica.

"...bati-o violentamente no ladrilho. Nada! O rato, agora meio amassado, continuava com os dentes cravados no meu indicador. Oh! O horror! O que não faz o homem no auge do desespero! Não tive tempo para raciocinar. A dor e o ódio embotaram os últimos traços de humanidade que havia em mim. Levantei-o até à altura da minha boca e dei-lhe uma mordida na cabeça, esmagando o seu crânio como se fosse uma cobertura crocante de alguma sobremesa." p.126/7

Um comentário:

  1. Oi Jorcenita!
    Parece ser um ótimo livro! Gostei da dica.
    Prazer estar aqui! Com tempo, venha ler e comentar OS DOZE ZUMBIS & A CADELA BRAMA no http://jefhcardoso.blogspot.com
    Abraço!

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