31 de out de 2008

Ilusão

Tenho a vida presente para questionar
o mistério do MUNDO
Terei a vida futura para aprofundar
o sentido de TUDO.

- O que é mais rápido que o vento?
- O pensamento.
- Um exemplo de veneno?
- O desejo.
- O que pode cobrir toda a terra?
- A escuridão.
- Qual a maior ignorância?
- A paixão.
- Dá-me um exemplo de tristeza
- A ignorância.
- E um exemplo de bonança?
- A compaixão.
- Um exemplo de espaço?
- Minhas duas mãos juntas.
- Um exemplo de derrota?
- A vitória.
- E a causa do mundo qual é?
- O amor.
- Qual é o teu contrário?
- O eu sou.
- O que é a loucura?
- Um caminho esquecido.
- O que é a solidão?
- Estar no mundo perdido.
- E a revolta? Porque os homens se revoltam?
- Para encontrar a beleza, tanto na vida quanto na morte, encontrar a bondade.
- E o que é inevitável?
- A felicidade,
A grande maravilha é vivermos como seres eternos, todos os dias somos desferidos por golpes mortais e resistimos, insistimos, investimos. Está é a grande armadilha, e a maior maravilha!

Releituras de Mahabarata, de Jean-Claude Carriére, por Jorce e Nita.

29 de out de 2008

"Triste coisa, o animal de duas pernas chamado homem."


Triste coisa o animal de duas pernas que consome,
Triste coisa o animal de duas pernas que que tem fome,
"Triste coisa, o animal de duas pernas chamado homem."

Riso, riso espontâneo, riso forçado
riso chorado...
ao ver o homem que nasce livre
e quer rapidamente ver-se 'algemado'

lágrimas são reticiências de riso
são espelhos, são reflexos

lágrimas refletindo sonhos deslizando

vida e alma
Triste rio de lágrimas

riso de lágrimas
Rio para não chorar,
porque nada rima com lágrimas
que secam no mar


hipocrisia?
-que me consome.
lágrimas ao ver o 'rio',
... lágrimas ao ver o homem.

28 de out de 2008

Crepúsculo dos ídolos - Nietzsche

-És um monstro! Escondes dentro do teu coração todos os vícios e todos os maus desejos.
- Conheceis-me! "É verdade, disse ele, mas consegui dominá-los a todos."
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"Toda a concessão feita aos instintos e ao inconsciente rebaixa" .... olhares da Jorce

"Ver-se forçado a lutar contra os instintos - eis a decadência: enquanto a vida é ascendente, a felicidade identifica-se com o instinto" .... olhares da Nita

27 de out de 2008

Barreira

Eu a vi! estava trêmula, chocada, arrependida
voara rapidamente em direção à vida!

uma barreira aguardava no ar
tão cega ao ser feliz, não vira ao voar
que havia uma barreira no ar.

Faltas sentidas e aceitação da vida

Antes da queda a angústia
antes da angústia a paixão
antes da paixão
eu não era, quem eu era
antes da infantilidade
o nascimento
antes do nascimento
um projeto, só que ....
esqueceram de me passar as regras
de como se vive na terra
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nunca é tarde para tentar aprender
eu não quero sofrer mais!
sufoco que sufoca
e neste tormento sem fim,
não existem respostas para mim.
Será que fiz certo?! O que posso fazer?
Se eu pudesse escolher....
Me perdoem os otimistas
com toda certeza, escolheria 'não Ser'.

26 de out de 2008

Diário


O Diário de Um Escritor (Dnévnik Pisátelia) reúne crônicas jornalísticas escritas por Dostoiévski em épocas diferentes, vai de 1861 até 1877.
Sua mais alta idéia política: autocratismo do czar
Sua fé: da igreja ortodoxa
Seu amor: dedicado ao povo russo que salvará e dominará o mundo
Pan-eslavismo: imperialista (sua nação: todas as virtudes, as outras nações: todos os vícios)
Seu ódio: à Europa (furiosamente antieuropeu)
Para Dostoiévski, o homem é intrinsicamente maligno.
Dostoiévski era meio realista, meio romântico, meio patético, meio irônico.
Diário de um escritor, poderia ser escrito em nossa época, as "causas célebres" acontecem hoje também, as convicções, os desesperos, a fé e a esperança de um mundo melhor, um futuro melhor, um outro mundo possível é isso que nos faz viver. Sem esperança a vida já não existira mais, eu já não existiria mais, nós não existiríamos mais.
Tenho fé no crescimento, no amadurecimento .... e uma esperança c r e s c e n t e.... em um futuro melhor que o presente.
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O Poeta e o Homem
"Soprava o vento; chovia,
Quando vindo de Poltava
Já chegava à capital;
Com grande cajado,
Pendente um saco vazio;
Aos ombros pobre pele de carneiro,
E no bolso quinze grosch;
Sem dinheiro, sem nome,
De estatura pequena e ridícula;
Já passei dos quarenta anos
E trago um milhão no bolso..."
Nikolai Alekseevich Nekrassov.

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AFIRMAÇÕES SEM PROVAS
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"E se a crença na imortalidade da alma é tão necessária à vida humana é por ser o estado normal da Humanidade, provando que a imortalidade existe. Em uma palavra: esta crença é a própria vida e a primeira fonte de verdade e de consciência real para a Humanidade."
Dostoiévski. Diário de um escritor.

Amore


24 de out de 2008

Malabarista

É madrugada, quase alvorecer...não fosse a chuva que cai insistentemente, talvez eu pudesse ver o sol nascer. Mas com certeza, esta longa dor no peito, será leve quando o dia raiar e a chuva no tempo tristemente a levar. Que a longa dor seja de um curto sentir, e que o meu aprender seja de um longo viver. Quero aprender, quero conhecer, quero viver. São cinco da madrugada, acordei para tentar dissecar minha alma! E no dia a dia de auto conhecer, vou aprendendo a sentir e aprendendo a morrer. -*- Vivo de Morrer -?- (vivemos de morrer).

Malabarista

Certezas abraçadas em dúvidas
Sentimentos divididos em trocentas partes
Pedaços de sonhos

Ilusões e ótica
Desejos desencontrados despencando ali e aqui
Um monte de informações provisórias disfarçadas de verdades
Crenças
Intuições sem eira nem beira
Preguiças de tudo e de todos
Momentos de prazer
Solidões e angústias
Culpas e tédios
Costumes em penca
Vontades de aprender a vida
Vontades de partir pro tapa
Vontades de ser feliz
Vontades de morrer

Tudo isso jogado no ar
Essa voadora lista
Flutua sólida e instável
No coração do malabarista

Ricardo Azevedo


"Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto." João 12:24

"Combater e morrer, é pela morte derrotar a morte, mas temer e morrer é fazer-lhe homenagem com um sopro servil." William Shakespeare

23 de out de 2008

Bagaço

Agora já passam das 4.
amanhã estarei um bagaçuuu.

(....)hummmpf odeio msn.
minhas reflexões já me bastam.

Compensação

Óh! meu Deus!
eu quero compreensão
com pen sa ação.

Existe perdão!?
aqui na terra é só aflição
tinha um rebanho de irmãos
cobicei libertação

tinha eternidade
preferi fugacidade

tinha salvação, ilusão,
preferi realidade, posteridade

e no meio de tudo isso
não almejo infinito

basta-me um pouco de equilíbrio
comprometimento ético
l i b e r d a de
ssoolliiddaarrieeeddaaddee
p e r f e c t i b i l i d a d e !

O crocodilo

Quase 3h30 da manhã! Tenho que trabalhar amanhã, oras!!!!
Mas vamos lá, vamos lá...só mais uma postagem, vai.

Acabo de ler apressadamente, O Crocodilo de Fiódor Dostoiévski.
"....Em primeiro lugar, o crocodilo, para meu espanto, é completamente vazio. O seu interior consiste como que num enorme saco vazio, de borracha (...) O crocodilo possui somente mandíbulas, providas de dentes aguçados, e uma cauda consideravelmente longa; realmente, é tudo. E, no meio, entre essas duas extremidades, fica um espaço vazio (...) Qual é a propriedade fundamental do crocodilo? A resposta é clara: engolir gente. Como conseguir então, pela disposição do crocodilo, que ele engula gente? A resposta é ainda mais clara: fazendo-o oco. Já está há muito resolvido pela física que a natureza não tolera o vazio. De acordo com isto, também as entranhas do crocodilo devem ser justamente vazias, para não tolerar o vazio; por conseguinte, devem incessantemente engolir e encher-se de tudo o que esteja à mão. E eis o único motivo plausível por que todos os crocodilos engolem a nossa espécie. Não foi o que sucedeu, porém, na disposição do homem: quanto mais oca, por exemplo, é uma cabeça humana, tanto menos ela sente ânsia de se encher; e esta é a única exceção à regral geral....". pág. 43.
DOSTOYÉVSKY, Fyodor. O crocodilo; Notas de inverno sobre impressões de verão. 3. ed São Paulo: Ed. 34, 2000. 163p

O mal em todas as suas cores 'clique aqui'

"Se não há imortalidade da alma, então não há virtude, o que quer dizer que tudo é permitido. p. 93
É estranho eu aqui, falando comigo mesma! Antes era tudo meio cheio, lotado, atolado, 'ensopado' (lembra Fabi?). Agora estou aqui, teclando solitária, blá blá blá solitárias, desejos solitários, solidão solitária, vontades solitárias, sofrimento solitário. "Que coisa bem chata?" lamentos, lamentos, lamentos....Caramba! _________________________
"Não se constranja, esteja como que em sua casa, sobretudo, não tenha tanta vergonha de si mesmo, porque todo o mal vem daí." Stárets p.54 II Um velho palhaço. Livro II Uma reunião inoportuna. Dostoiévski. Os irmãos Karamázov.
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NARCISISMO EGOÍSTA - "Numa palavra: trabalho por um salário, exijo-o imediatamente, sob forma de elogios e de amor em troca do meu. De outro modo, não posso amar ninguém. IV Uma dama sem muita fé. Livro II Uma reunião inoportuna. Dostoiévski. Os irmãos Karamázov. pág.68
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"Eu amo a humanidade - dizia ele -, mas admiro-me de mim mesmo. Quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Muitas vezes tenho sonhado apaixonadamente em servir à humanidade, e talvez tivesse mesmo subido ao calvário por meus semelhantes, se tivesse sido preciso, embora não possa viver com ninguém dois dias no mesmo quarto. Sei por experiência. Quando alguém está junto de mim, sua personalidade oprime meu amor-próprio e constrange minha liberdade. Em vinte e quatro horas, posso antipatizar com as melhores pessoas: uma, porque fica muito tempo na mesa, outra, por que está resfriada e só faz espirrar. Torno-me o inimigo dos homens, logo que ficam em contato comigo. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas em particular, mas ardo de amor pela humanidade em geral."IV Uma dama sem muita fé. Livro II Uma reunião inoportuna. Dostoiévski. Os irmãos Karamázov. p.68
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"Ora, predigo-lhe que no momento em que a senhora verificar com terror que, apesar de todos os seus esforços, não somente a senhora não se aproximou do alvo, mas até mesmo dele se afastou - neste momento, digo-lhe - a senhora atingirá o alvo e verá acima da senhora a força misteriosa do Senhor, que a terá guiado com amor, sem que a senhora soubesse."IV Uma dama sem muita fé. Livro II Uma reunião inoportuna. Dostoiévski. Os irmãos Karamázov. p.69
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"Jamais consegui compreender como se pode amar o próximo. É precisamente, na minha opinião, o próximo que não se pode amar, ou somente a distância (...) Para que possa amá-lo, é preciso que um homem esteja oculto; a partir do momento em que ele mostra seu rosto, o amor desaparece (...). Dizia também que muitas vezes, para almas inexperientes, o rosto de um homem é um obstáculo ao amor. O amor do Cristo pelos homens é uma espécie de milagre impossível na terra. É verdade que Ele era Deus; mas nós não somos deuses." Dostoiévski. Os irmãos Karamázov. p.250
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A revolta

IV
A REVOLTA
- Devo confessar-lhe uma coisa - começou Ivan. - Jamais consegui compreender como se pode amar o próximo. É precisamente, na minha opinião, o próximo que não se pode amar, ou somente a distância. Li em algum lugar, a propósito de li!;)1santo, João, o Misericordio- SO,55a quem um passante faminto e transido de frio foi um dia supli-
car que o aquecesse; o santo deitou-se com ele, tomou-o nos seus braços e começou a sopf{ir seu hálito na boca purulenta do infeliz, infectada por uma horrível moléstia. Estou convencido de que fez isso com esforço, mentindo a si mesmo, num sentimento de amor ditado pelo dever e por espírito de penitência. Para que possa amá- 10, é preciso que um homem esteja oculto; a partir do momento em que ele mostra seu rosto, o amor desaparece. - O stárets Zósima falou várias vezes sobre isso - observou Aliócha. - Dizia também que muitas vezes, para almas inexperientes, o rosto de um homem é um obstáculo ao amor. Há, no entanto, muito amor na humanidade, um amor quase igual ao do Cristo, eu mesmo sei disso, Ivan... - Pois bem, eu não sei ainda e não posso compreendê-Io; muitos estão no mesmo caso. Trata-se de saber se isso provém dos maus pendores, ou se é inerente à natureza humana. Na minha opinião~ amor do Cristo elos homens é uma es é . . r'm ossível na Terra. É verda e que Ele era Deus; mas nós não somos deuses. "'" ~ . -~ Suponhamos, por exemplo, que eu sofra profundamente, outro não poderá jamais saber a que ponto eu sofro, porque é outro e não eu. Além do mais, é raro que um indivíduo consinta em reconhecer o sofrimento de seu próximo (como se fosse uma dignidade!). Por que isso, que você acha? Talvez porque cheiro mal, tenho o ar estúpido ou pisei o pé daquele senhor! Além disso, há diversos sofrimentos: o que humilha, a fome, por exemplo, meu benfeitor irá querer admiti- 10;mas desde que meu sofrimento se eleva, que se trata de uma idéia, por exemplo, só nela acreditará por exceção porque talvez, examinando- me, verá que não tenho o rosto que sua imaginação empresta a um homem que sofre por uma idéia. Logo cessará seus benefícios e isto sem maldade. Os mendigos, sobretudo aqueles que têm alguma nobreza, não deveriam jamais mostrar-se mas pedir esmola por intermédio dos jornais. Em teoria, ainda, pode-se amar seu próximo, e até mesmo de longe; de perto, é quase impossível. Se, pelo menos, tudo se passasse como no palco, nos balés em que os pobres em farrapos de seda e com rendas rasgadas mendigam, dançando graciosamente, ainda seria possível admirá-los, não amá-los. Mas chega de falar nisso. Queria somente fazê-lo ver meu ponto de vista. Queria falar dos sofrimentos da humanidade em geral, mas é melhor que me limite aos sofrimentos das crianças. Meu argumento ficará reduzido à décima parte, mas é melhor assim. Perco com isso, bem entendido. Em primeiro lugar, pode-se amar as crianças de perto, mesmo sujas, mesmo feias (mas me parece que as crianças nunca são feias). 250 Em seguida, se não falo dos adultos, é que não somente são repelentes e indignos de ser amados, mas têm uma compensação: comeram o fruto proibido, discerniram o bem e o mal, tornaram-se "semelhantes a deuses". Continuam a comê-lo. Mas as criancinhas nada comeram e ainda são inocentes. Gosta de crianças, Aliócha? Sei que as ama e compreenderá por que só quero falar delas. Sofrem muito, elas também, sem dúvida; é para expiar a falta de seus pais que comeram o fruto; mas é o raciocínio de um outro mundo, incompreensível para o coração humano aqui embaixo. Um inocente não saberia sofrer por um outro, sobretudo um pequeno ser! Isto o surpreenderá, Aliócha, mas eu também adoro as crianças. Note que os homens cruéis, de paixões selvagens, os Karamázov, às vezes amam muito as crianças. Até os sete anos, as crianças diferem enormemente do homem; são como um outro ser, com outra natureza. Conheci um bandido num cárcere; durante sua carreira, quando se introduzia de noite nas casas para roubar, assassinara famílias inteiras, inclusive as crianças. No entanto, na prisão, amava-as estranhamente. Só fazia olhar as que brincavam no pátio da prisão e tornou-se amigo de um menino habituado a brincar sob sua janela... Sabe por que digo isto, Aliócha? Estou com dor de cabeça e sinto-me triste. - Você está com um ar esquisito, como se não estivesse em seu estado normal - observou Aliócha com inquietação. - Apropósito, um búlgaro contou em Moscou - continuou Ivan, como se não tivesse ouvido seu irmão - as atrocidades dos turcos e dos cherqueses em seu país: temendo um levante geral dos eslavos, incendeiam, estrangulam e violam as mulheres e crianças; pregam os prisioneiros nas paliçadas pelas orelhas, abandonam-nos assim até de manhã, depois os enforcam etc. Às vezes compara-se a crueldade do homem com a dos animais selvagens; é uma injustiça para com estes. As feras não atingem jamais os refinamentos do homem. O tigre dilacera sua presa e a devora; não conhece outra coisa. Não lhe ocorreria pregar as pessoas pelas orelhas, mesmo que o pudesse fazer. São os turcos os que torturam crianças com um prazer sádico, arrancam os bebês do ventre materno, lançam-nos no ar para recebêlos nas pontas das baionetas, sob os olhos das mães cuja presença constitui o principal prazer. Foi outra cena que me impressionou. Pense nisto: um bebê ainda de peito, nos braços de sua mãe trêmula, e em torno deles os turcos. Ocorre-lhes uma idéia divertida: acariciando o bebê, conseguem fazê-l o rir; depois um deles aponta-lhe um revólver bem junto ao rosto. A criança ri alegremente estende suas mãozinhas para agarrar o brinquedo; de repente, o artista puxa o ga- 251tilho e rebenta-lhe a cabeça. Os turcos gostam muito, segundo dizem, de coisas doces. " - Meu irmão, a propósito de que vem tudo isto? - Penso que se o diabo não existe e, por conseguinte, foi criado pelo homem, este deve tê-lã feito à sua imagem. - Como Deus, então? - Você sabe usar as palavras muito bem, como diz Polônio no Hamlet - continuou Ivan, rindo. - Pegou nessa frase; mas seja, isto me agrada. Mas é belo o seu Deus, se a humanidade o fez à sua imagem. Perguntava ainda há pouco por que falo de tudo isto? Sou um diletante, um apreciador de fatos e anedotas; recolho-os dos jornais, anoto o que me é contado; isto já forma uma bela coleção. Os turcos figuram nela, naturalmente, com outros estrangeiros, mas tenho também casos nacionais que os ultrapassam. Entre os russos, as varas e o chicote têm lugar de honra; não se prega ninguém pelas orelhas, ora essa, somos europeus, mas nossa especialidade é açoitar e não seria possível privar-nos dela. Parece que essa prática desapareceu no estrangeiro em conseqüência do abrandamento dos costumes, ou então porque as leis naturais proíbem que o homem açoite seu semelhante. Em compensação, existe lá como aqui um costume, a tal ponto nacional, que seria quase impossível na Rússia, embora se adote também entre nós, sobretudo em virtude do movimento religioso na alta sociedade. Possuo uma interessante brochura traduzida do francês, em que se conta a execução em Genebra, há cinco anos, de um assassino chamado Richard, que se converteu ao Cristianismo antes de morrer, na idade de vinte e quatro anos. Era filho natural, "dado" por seus pais, quando tinha seis anos, a pastores suíços, que o educaram para fazer dele um trabalhador. Cresceu como um pequeno selvagem, sem nada aprender; aos sete anos, mandaram que levasse o rebanho pastar, no frio e na umidade, mal agasalhado e faminto. Aquela gente não sentia nenhum remorso ao tratá-Ia assim; pelo contrário, achava que tinha direito de fazê-Ia, porque lhe haviam dado Richard como uma coisa e não julgava necessário nem mesmo nutri-Ia. O próprio Richard conta que então, como o filho pródigo do Evangelho, quis até comer os restos de comida destinados aos porcos que eram engordados, mas era privado disso e batiam-lhe quando ele a roubava dos animais, foi assim que passou sua infância e sua mocidade, até que, tornando-se grande e forte, pôs-se a roubar. Aquele selvagem ganhava a vida em Genebra como jornaleiro, bebia seu salário, vivia I como um monstro e acabou assassinando um velho para roubá-Ia. \! Foipreso,julgado e condenadoà morte.Não.seé sentimentalnaquela l '"cidade! Na prisão, é logo cercado pelos pastores, pelos membros de associações religiosas, pelas senhoras patrocinadoras. Aprendeu a ler e a escrever, explicaram-lhe o Evangelho e, à força de doutriná-Io e de catequizá-Io, acabou por confessar solenemente seu crime. Dirigiu ao tribunal uma carta declarando que era um monstro, mas que o Senhor se havia dignado esclarecê-Io e enviar-lhe sua graça. Toda Genebra ficou emocionada, a Genebra filantrópica e beata. Tudo quanto havia de nobre e de bem-pensante acorreu à prisão. Beijam-no, abraçam-no: "Você é nosso irmão! Foi tocado pela graça!" Richard chora de enternecimento: "Sim, Deus iluminou-me! Na minha infânci~ e na minha mocidade, eu invejava a varredura dos porcos; agora, a graça tocou-me, morro no Senhor!" - "Sim, Richard, você derramou sangue e deve morrer. Não é culpa sua se ignorava Deus, quando roubava a varredura dos porcos e apanhava por causa disso (aliás, tinha bastante culpa porque é proibido roubar), mas derramaste sangue e deves morrer." Enfim chega o último dia; Richard, enfraquecido, chora e só faz repetir a cada instante: "Este é o mais belo dia de minha vida, porque vou para Deus!" - "Sim - exclamam pastores, juízes e senhoras patrocinadoras -, é o mais belo dia de sua vida, porque vai para Deus!" O grupo se dirige para o cadafalso, atrás da carreta que leva Richard. Chegam ao local do suplício. "Morra, irmão - gritam para Richard -, morra no Senhor, Sua graça o acompanhe." E, coberto de beijos, o irmão Richard sobe ao cadafalso, colocam-no na guilhotina e sua cabeça cai, em nome da graça divina. - É característico. A brochura foi traduzida para o russo pelos lu ter anos da alta sociedade e distribuída como suplemento gratuito a diversos jornais e publicações, para instruir o povo. A aventura de Richard é interessante porque é nacional. Na Rússia, embora seja absurdo decapitar um irmão pela única razão de ter-se tornado dos nossos e tê-Io tocado a graça, temos coisa quase igual. Entre nós, torturar batendo constitui uma tradição histórica, um gozo pronto e imediato. Niekrássov56 conta num de seus poemas como um mujique bate com seu chicote nos olhos de seu cavalo. Quem já não viu isso? É bem russo. O poeta mostra que o cavalo sobrecarregado, atolado com sua carroça, não pode desvencilhar-se. Então o mujique bate nele encarniçadamente, bate sem compreender o que faz, os golpes chovem numa espécie de embriaguez. "Não pode puxar, pois puxará assim mesmo; morra, mas puxe." O animal sem defesa debate-se desesperadaMente, enquanto seu dono açoita seus doc~s olhos, de onde rolam lágrimas. Enfim, ele consegue desatolar-se "e lá se vai tremendo, sem fôlego, num andar cambaleante, constrangido, envergonhado. Isto produziu em Niekrássov uma impressão espantosa. Mas também não se trata apenas de um cavalo que Deus criou para ser chicoteado? Foi o que nos explicaram os tártaros que nos legaram o chicote. No entanto, podese também açoitar as pessoas. Um senhor culto e sua mulher sentem prazer em açoitar com varas sua filhinha de sete anos. E o papai sente- se feliz porque as varas têm espinhos. "Isto causará mais dor assim", diz ele. Há seres que se excitam a cada golpe, até o sadismo, progressivamente. Bate-se na criança, um minuto, depois cinco, depois dez, sempre mais fortemente. Ela grita, afinal, já sem forças, sufoca: "Papai, meu papaizinho, tenha dó!" O caso torna-se escandalos e recorre-se ao tribunal. Toma-se um advogado. Há muito tempo que o povo russo chama o advogado de "uma consciência que se aluga". O defensor pleiteia em nome de seu cliente: "0 caso é simples; é uma cena de família, como se vêem muitas. Um pai açoitou sua filha, é uma vergonha processá-Io!". O júri fica convencido, recolhe- se e traz um veredicto negativo. O público exulta por ver absolvido aquele carrasco. Eu não assisti à audiência. Teria proposto criar uma bolsa em honra daquele bom pai de família!... É um belo quadro! No entanto, tenho ainda melhor, Aliócha, e sempre a propósito de crianças russas. Trata-se de uma menina de cinco anos, por quem seu pai e sua mãe criaram aversão, honrados funcionários instruídos e educados. Repito, é um pendor especial de muitas pessoas o prazer de torturar as crianças, mas somente as crianças. Para com os outros indivíduos, esses carrascos se mostram afáveis e ternos, como europeus instruídos e humanos; mas sentem prazer em fazer as crianças sofrerem, é sua maneira de amá-Ias. A confiança angelical dessas criaturas sem defesa seduz os seres cruéis. Não sabem aonde ir, nem a quem se dirigir, e isto excita os maus instintos. Cada homem oculta em si um demônio: acesso de cólera, sadismo, desencadeamento de paixões ignóbeis, doenças contraídas na devassidão, ou então a gota, a hepatite, isto varia. Portanto, aqueles pais instruídos praticavam . muitas sevícias na pobre menininha. Açoitavam-na, espezinhavamna sem razão, seu corpo vivia coberto de equimoses. Imaginaram por fim um refinamento de crueldade; nas noites glaciais, no inverno, trancavam a menina na privada, com o pretexto de que ela não pedia a tempo, à noite, para ir ali (como se, naquela idade, uma criança que dorme profundamente pudesse sempre pedir a tempo). Esfregavamlhe os próprios excrementos na cara, e sua mãe, sua própria mãe a obrigava a comê-Ios! E essa mãe dormia tranqüila, insensível aos gritos da pobre criança fechada naquele lugar repugnante! Você imagina aquele pequeno ser, não compreendendo o que lhe acontece, no frio e na escuridão, batendo com seus pequeninos punhos no peito ofegante e derramando lágrimas inocentes, chamando o "bom Deus" em seu socorro? Compreende esse absurdo, ele tem um propósito, meu amigo e meu irmão, você, o noviço piedoso? Dizem que tudo isso é indispensável para estabelecer a distinção entre o bem e o mal no espírito do homem. Para que pagar tão caro essa distinção diabólica? Toda ciência do mundo não vale as lágrimas das crianças. Não falo dos sofrimentos dos adultos. Eles comeram o fruto proibido, que o diabo os leve! Mas as crianças! Estou fazendo você sofrer, Aliócha, parece que não está passando bem. Quer que me pare? - Não, também quero sofrer. Continua. - Ainda um pequeno quadro característico. Acabo de ler nos Arquivos Russos ou em A Antigüidade Russa, não sei bem. Era na época mais sombria da servidão, no começo do século XIX. Viva o czar o libertador! Um antigo general, com importantes relações, rico proprietário rural, vivia numa de suas propriedades, da qual dependiam duas mil almas. Era um desses indivíduos (na verdade, já pouco numerosos então) que, depois de afastados do serviço militar, estavam quase convencidos de seu direito de vida e morte sobre seus servos. Cheio de arrogância, tratava do alto seus modestos vizinhos, como se fossem parasitas e palhaços seus. Tinha um centena de capatazes,todos a cavalo e uniformizados, e várias centenas de galgos. Um dia, um pequeno servo de oito anos, que se divertia atirando pedras, feriu na pata um daqueles cães favoritos. Vendo seu cão coxear, o general perguntou a causa. Explicaram-lhe o caso, indicando o culpado. Mandou imediatamente agarrar o menino, que arrancaram dos braços da mãe e fizeram passar a noite na prisão. No dia seguinte, logo ao romper da aurora, o general, em uniforme de gala, monta a cavalo para ir à caça, cercado de seus parasitas, de seus cães, de seus capatazes. Reúne-se toda a famulagem para que seja dado um exemplo e a mãe do culpado é trazida, bem como o menino. Era uma manhã de outono, brumosa e fria, excelente para a caça. O general manda que tirem toda a roupa do menino, o que foi feito. O menino tremia, louco de medo, não ousando dizer uma palavra. "Façam-no correr", ordena o general. - "Corra! corra!", gritam-lhe os capatazes. O menino começa a correr. "Cisca! Cisca!", berra o general e açula toda a sua matilha. Os cães estraçalharam a criaQ..ça'diante dos olhos de sua mãe, O general, parece, foi posto sob tutela. Pois bem que merecia ele? Seria preciso fuzilá-Io? Fale, Aliócha. I, I- Sim, fuzilá-Io! - proferiu mansamente Aliócha, totalmente pálido, com um sorriso cORvulso. - Bravo! - exclàmou Ivan, encantado. - Se você diz, é que... Vejam só, o asceta! Entãp você também tem um diabinho no coração, Aliócha Karamázov? - Disse uma tolice, mas... - Sim, mas... Fique sabendo, noviço, que as tolices são necessárias ao mundo; sobre elas é que ele se funda: sem essas tolices, nada aconteceria aqui na Terra. Sabemos o que sabemos. - O que você sabe? - Não compreendo nada - prosseguiu Ivan, como em sonho -, nada quero compreender agora. Atenho-me aos fatos. Tentando compreender, altero os fatos... - Por que me atormenta? - disse dolorosamente Aliócha. - Vai me dizer, finalmente? - Claro. Preparava-me para dizer. Gosto de você e não quero abandoná-Io ao seu Zósima. Ivan calou-se um instante e seu rosto ficou triste de repente. - Escute, limitei-me às crianças para ser mais claro. Nada disse sobre as lágrimas humanas das quais a Terra está saturada, abreviando de propósito meu assunto. Confesso humildemente não compreender a razão desse estado de coisas. Os homens são os únicos culpados; tinham-Ihes dado o paraíso, cobiçaram a liberdade e arrebataram o fogo do Céu, sabendo que seriam infelizes; não merecem, portanto, nenhuma compaixão. Segundo meu pobre espírito terrestre, sei apenas que o sofrimento existe, que não há culpados, que tudo se encadeia, tudo passa e se equilibra. São as bazófias de Euclides, eu sei, mas não posso concordar em viver baseando-me nisso. Que bem ???e pode fazer tudo isso? Preciso é de uma compensação, do contrário vou destruir a mim mesmo. E não uma compensação em alguma parte, no infinito, mas aqui embaixo, que eu mesmo a veja. Acreditei, quero ser testemunha, e se já estou morto, que me ressuscitem; se tudo se passasse sem mim seria bastante aflitivo. Não quero que meu corpo com seus sofrimentos e suas faltas sirva unicamente para arder a serviço de alguma harmonia futura. Quero ver com meus olhos a corça dormir junto do leão, a vítima beijar seu matador. É sobre este desejo que repousam todas as religiões e eu tenho fé. Quero estar presente quando todos souberem o porquê das coisas. Mas as crianças, que farei delas? Não posso resolver essa questão. Se todos devem sofrer, a fim de concorrer com seu sofrimento para a harmonia eterna, qual o papel das crianças? Não se compreende por que de- 256veriam sofrer, elas também, em nome da harmonia. Por que serviriam de material destinado a prepará-Ia? Compreendo a função do pecado e do castigo, mas ela não pode ser aplicada aos pequenos inocentes, e se na verdade são solidários com os erros de seus pais, é uma verdade que não é deste mundo e que eu não compreendo. Um galhofeiro malicioso objetará que as crianças crescerão e terão ocasião de pecar, mas aquele menino de oito anos ainda não havia crescido e foi estraçalhado pelos cães. Aliócha, não estou blasfemando. Compreendo como o universo estremecerá, quando o Céu e a Terra se unirem no mesmo grito de alegria, quando tudo quanto vive ou viveu proclamar: "Tens razão, Senhor Deus, porque Tuas vias nos são reveladas!", quando o carrasco, a mãe, o menino se beijarem e declararem com lágrimas: "Tens razão, Senhor Deus!" Sem dúvida, então a luz se fará e tudo será explicado. Mas a dificuldade é: não posso admitir esta solução. E tomo minhas providências a esse respeito, enquanto me encontro ainda aqui na Terra. Acredite-me, Aliócha, pode ser que eu viva até esse momento ou que ressuscite então, e talvez exclame com os outros, vendo a mãe beijar o carrasco e seu filho: "Tu tens r.azão, Senhor Deus!", mas será contra minha vontade. Enquanto ainda é tempo, recuso-me a aceitar essa harmonia superior. Acho que ela não vale uma lágrima de criança, daquela pequenina vítima que batia no peito e rezava ao "bom Deus", no seu canto infecto; não vale porque aquelas lágrimas não foram redimidas. Enquanto for assim, não se poderá falar de harmonia. Ora, não há possibilidade de redimi-Ias. Os carrascos sofrerão no inferno, você me dirá. Mas de que serve esse castigo, se as crianças também tiveram o seu inferno? Aliás, o que vale essa harmonia que comporta um inferno? Quero o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. E se o sofrimento das crianças serve para completar a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo desde agora que essa verdade não vale esse preço. Não quero que a mãe perdoe o carrasco, não tem esse direito. Que lhe perdoe seu sofrimento de mãe, mas não o que sofreu seu filho estral;alhado pelos cães. Mesmo que seu filho perdoasse, ela não teria o direito. Se o direito de perdoar não existe, o que acontece com a harmonia? Há no mundo um ser que tenha esse direito? Por amor pela humanidade é que não quero essa harmonia. Prefiro conservar meus sofrimentos não redimidos e minha indignação persistente, mesmo s"e não tivesse razão! Aliás, deram realce excessivo a essa harmonia, a a entrada custa caro demais p'ara nós. Prefiro devolver meu bilhete de entrada. Como homem de 257 bem, tenho mesmo obrigação de devolvê-Io o mais cedo possível. É o que faço. Não me recuso a aClmitir Deus, mas muito respeitosamente devolvo-lhe meu bilhete. - Mas isto é revolta - disse mansamente Aliócha, de olhos baixos. - Revolta? Não era meu desejo ver você empregar essa palavra. Pode-se viver revoltado'? Ora, eu quero viver. Responda-me francamente. Imagine que os destinos da humanidade estejam em suas mãos e que para tornar as pessoas definitivamente felizes, proporcionarlhes finalmente a paz e o repouso, seja indispensável torturar um ser apenas, a criança que batia no peito com seu pequeno punho, e basear sobre suas lágrimas a felicidade futura. Você concordaria, nestas condições, em edificar semelhante felicidade? Responda sem mentir. - Não, não concordaria. - Então, pode admitir que os homens concordariam em aceitar essa felicidade ao preço do sangue de um pequeno mártir? - Não, não posso admitir isso, meu irmão - declarou Aliócha, com os olhos cintilantes. - Você perguntou se existe no mundo inteiro um Ser que teria o direito de perdoar. Sim, este Ser existe. Pode perdoar tudo, a todos e por tudo, porque foi Ele quem verteu Seu sangue inocente por todos e por tudo. Você O esqueceu, é Ele a pedra angular do edifício e é a Ele que se deve gritar: "Tu tens razão, Senhor Deus, porque tuas vias nos são reveladas." - Ah! sim, "o único impecável" e "Seu sangue". Não, não O esqueci, admirava-me, pelo contrário, de que não O tivesse ainda mencionado, porque nas discussões os seus começam habitualmente por colocá-LO à frente. Fique sabendo, mas não ria, que compus um poema, há um ano. Se puder dar-me ainda dez minutos, vou recitá-Io. - Escreveu um poema? - Não - disse Ivan, rindo -, porque jamais compus dois versos sequer em minha vida. Mas sonhei esse poema e lembro-me dele. Você será meu primeiro leitor, isto é, meu ouvinte. Por que não aproveitar sua presença? Quer? - Sou todo ouvidos. - Meu poema intitula-se O Grande Inquisidor, é absurdo, mas quero que o conheça.
v O GRANDE INQUlSIDOR
- É necessário um preâmbulo do ponto de vista literário. A ação se passa no século XVI. Sabe que nessa época era costume fazer intervi-

?? visão falsa ¿¿

"O que eu quero dizer é isto: se conseguirmos convencer uma pessoa por meio da lógica, de que, na realidade, não tem motivos para chorar, ela deixará de chorar. Isso está se vendo. Que lhe parece?
- Nesse caso, a vida seria muito fácil - respondeu Raskólhnikov. - Com licença, com licença; não há dúvida de que Ekatierina Ivánovna teria muita dificuldade em compreender, mas o senhor sabe que em Paris estão sendo realizadas sérias experiências a respeito da possibilidade de curar os loucos usando unicamente a persuasão lógica? Um professor dessa cidade, recentemente falecido, pensava que eles se poderiam curar dessa maneira. A sua idéia fundamental era a de palavras do doente, paulatinamente e, imagine!, dizem que obtinha resultados. Mas como, para isso, usava argumentos psicológicos, os resultados desse tratamento sugerem dúvidas, que no organismo do louco não existe nenhum transtorno especial, e que a loucura é, por assim dizer, um erro de lógica, um erro no raciocínio, uma visão falsa das coisas. Ele ia refutando as indubitavelmente...Pelo menos é o que parece...". Dostoiévski. Crime e castigo. L&PM p. 459

Se todos os chamados loucos tivessem somente uma "visão falsa das coisas"....

ha, ha, ha! Castelos no ar


Fantásticos castelos de areia
Vidas vivendo ao vento
o mar inquieto, agitado, oscilando
coisas e pessoas acabam dançando
Mercado alado!
Marcando, re marcando, martelando
exclui um castelo encantado
Vento alado...calado
restam grãos de areia chicoteando a alma
Marcando o rosto
empurrando a vida, martelando o ar
castelo de areia
castelo encantado
castelo no m a r
"- O pensionato, ha, ha, ha! Castelos no ar - exclamou Ekatierina Ivánovna depois de dar umas risadas, interrompidas pela tosse. - Não, Rodion Románovitch, os sonhos se desvaneceram!" Dostoiévski. Crime e castigo. p. 464

22 de out de 2008

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Onde estás?
que me incluiu
e me excluiu

que se doou
e re-a-provou
que remexeu
escarafunjou
e não gostou

onde está você
que me inspirou
e me inquietou
em algumas madrugadas
conversou, confessou

depoimento ia
depoimento vinha

'mas no pano de fundo
não havia ninguém,
absolutamente ninguém e
nada poderia ser preenchido'

será a vida um jogo
de inclusão
exclusão?
absorção?

quem entra?
quem sai?
quem decide?

no final de tudo, voltaremos todos a morrer
esta também é uma forma de viver.

Embora eu finja não me importar, atento para sua opinião particular


"Mesmo se só guardarmos no coração uma boa recordação, isto poderá servir um dia para nos salvar." (Fiódor Dostoiévski, Os irmãos Karamázov)
_______________________________________________
"O aroma tão tênue de uma planta insignificante sobrevive a todas as alegrais e a todos os sofrimentos do homem - sobrevive ao próprio homem." Turguêniev

Tudo sobreviverá a mim, tudo sobreviverá a tudo. Hoje restam cinzas, cinzas de lembranças, entrecortadas, não terminadas, mal acabadas. Não não tenham dó! Quase tudo vira pó...

Imortal é o que sobreviverá, neste intrincamento de nós, o amor, a solidadarieda, a fraternidade, a bondade.


Se eu fosse um pássaro
levantava vôo agora
abriria minhas asas nesta hora
e mergulharia no infinito azul

mas não tenho asas!
visto minha carapuça
vôo para minha concha
e dou asas aos meus sonhos

Sentido de felicidade

Estes dias passei uma tarde terrivelmente intranquila. A música não me acalmava, o serviço não me distraia, o tempo não escoava, nada me tranquilizava. Encontrava-me terrivelmente agitada por dentro, tudo em mim vibrava com uma inquietude tamanha que extrapolava meu ser. Era um misto de angústia e felicidade, de desejos universais e particular, de alma dilatada e contraída. Parece que eu sabia, eu sentia. Ele viria. As 17 horas não aguentei mais e desmaiei meu coração atribulado para mais uma pessoa. Me acalmei.
Quanto estamos cheios, transbordando...é bom conversar, desabafar com alguém para relaxar. Ás vezes este alguém é um escritor, um professor, um poeta, um artista, um amigo, um personagem, uma folha em branco, ou simplesmente um espaço vazio....Desabafei e me acalmei. E a noite, ele chegou...
Mas eu não disse! ou melhor, eu não senti?!!

E para não fugir a regra, + uma vez por minha conta e risco só fiz "merda"!

"Amanhã serei feliz! A felicidade não conhece o amanhã; nem mesmo o ontem; não se lembra do passado nem pensa no futuro; ela tem o presente - ainda assim, não um dia, mas um atímo." Turguêniev.

21 de out de 2008

Ladainha

Estou aqui meu amor, gostaria de conversar com você, de espreitá-lo em meus braços de tê-lo em mim, de olhar demoradamente em seus olhos, sei que você está longe, do outro lado da minha vida, me chamando de "estúpida" ou de "doente mental". Só sei afastá-lo de mim. Os pensamentos teimam em passear por minha mente e machucam-me, não pelo que senti mas por tudo o que não sentirei mais. Respeitarei teu silêncio, "não temos nada a dizer". Um livro me basta! dois, três, 1000 livros antes de partir.... Quero partir. Minha vida não tem sentido, mas queria ter tido a oportunidade de redescobrir a alegria de viver um dia mais perto de você. Tocar você! Voltar a me maravilhar novamente, tocar os pés, sentir teus lábios carnudos em minha testa novamente, sentir o seu carinho, o seu abraço quente o seu toque no fiozinho do meu blusão, o fio da linha da sua jaqueta, a pedrinha mágica para os momentos de indecisão, o açúcar derramado, o café virando, os pires desconcertados, o jornal ao lado, o livro sempre espiando por perto, e o seu olhar! o seu meigo e doce olhar! Estou carente de afeto, vivo carente de você..., mas como poderei ficar com você? Ao seu lado tento ser o que não sou, fico medindo as palavras, policiando minhas idéias, trancando meus sentimentos, tentando bloquear meu coração! Sem autenticidade...Tentando agradar e desagradando, tentando fazê-lo se apaixonar sem oferecer nada que o impressione e o deixe amando ! Só tenho minha vida!!! Sem rosto bonitinho e encantador, sem idéias bonitas, sem teorias, sem tom, sem cor, sem sabor, desafinada, desconfiada! Só com sonhos de eterno amor...Não definitamente, não. Sim, é claro que entendo você, como você amaria meu jeito estúpido de Ser !?

Jôiévski devaneando com Os irmãos Karamázov!



"Porque a felicidade é o objetivo do homem"... Entretanto, onde está a felicidade? Quem pode dizer-se feliz? p. 66

Lembro de um texto Bíblico: "Felizes os que têm o coração puro, pois eles verão a Deus”.

"Acontece que, dessa maneira, a sociedade não fica de modo algum preservada, porque, embora o membro nocivo seja mecanicamente cortado e mandado para longe, fora de vista, outro criminoso surgiu em seu lugar, talvez mesmo dois." p. 75

Lembro do menino, em Falcão: Os meninos do tráfico: "Se eu morrer nasce outro. Melhor ou pior que eu."

"Se alguma coisa ainda protege a sociedade, mesmo em nossos dias, regenera o próprio criminoso e faz dele outro homem, ainda é unicamente a lei do Cristo que se manifesta pela voz de sua própria consciência." p.75

Dráuzio Varela, faz um comentário similar em Estação Carandiru...

***


Vertida diretamente do russo, por Paulo Bezerra, chega ás livrarias Os irmãos Karamzóv, onde estão reunidas as principais vertentes da obra do escritor Dostoiévski.

***


A edição que estou lendo tem, uma bela introdução, feita por Otto Maria Carpeaux, nela o autor propõe uma interpretação dialética ao romance, vejamos: "O romance Os irmãos Karamázov passa-se em dois níveis diferentes. Embaixo, a Rússia dos Karamázov, envolvida nas névoas da paixão sensual desenfreada, das bebedeiras e orgias, do crime mascarado e da justiça cega, das filosofias subversivas e das visões satânicas; o diabo aparece em pessoa para conversar com Ivan, que, por sua vez, dirige a mão do parricida. Em cima, o convento, luminoso como um reflexo de glória celeste. Essa dicotomia representa a visão dostoievskiana do futuro: o cristianismo salavará a Rússia (não o da Igreja de Roma, porém); e a Rússia fará o cristianismo vencer no mundo. Eis a mensagem de Dostoiévski, que ele lança contra a mensagem escondida na filosofia de Ivan e de todos os Ivans que esperam que a revolução salvará a Rússia e que a Rússia salvará o mundo. Pelo seu romance, afirma Dostoiévski que a primeira tese, a sua, é evangélica e que a outra é satânica. Mas não escapa à inteligência insubornável do escritor o fato de que as duas teses são, no fundo, idênticas: basta trocar um substantivo para transformar uma na outra."

***

Em Dostoiévski e a consciência cristã, Pierre Pascal pergunta o seguinte: "Mas este paraíso na terra, que Dostoiévski não define de outra forma, será ele cristão? Os autores que trataram dessa noção em Dostoiévski vêem nela uma sobrevivência do antigo entusiasmo dele pelo 'socialismo utópico' ."

***



Aurora F. Bernardini, professora de pós-graduação em Literatura Russa da USP, escreve na revista Cult de nov. de 2008, o que segue: "Bem, dentro da polifonia dos romances dostoievskianos, a fala que mais impressiona o leitor, no livro, é a do "herético" Ivan Karamázov, embora - quem sabe - a fala do autor se escondesse atrás das palavras do puro Aliocha. Aí, como provou Bakhtin, está a revolução literária do autor Dostoiévski - não é a voz dele a que necessariamente se impõe. Ivan das torturas infligidas às crianças, Ivan que recusa o bilhete desse mundo de Deus, Ivan que compõe A lenda do grande inquisidor. Ainda mais paradoxal, as sementes de trigo da epígrafe produziram fruto sim, mas curiosamente, no sentido oposto ao que Dostoiévski esperava. O 'nosso pobre povo' quer o Milagre, o Mistério e a Autoridade em que se apoiar, enquanto o deus Capitalismo - o que o narrador execrava na figura do velho pai hedonista, Fiódor Pávlovitch Karamázov - continua regendo os destinos do mundo, até sua utópica derrocada."

19 de out de 2008

"Eu não podia viver sem livros e deixei de sonhar em casar com um príncipe chinês." Nastenka

"A inteligência só favorece a beleza." p.26
"Quando o meu coração fala a minha boca não se sabe calar." p.27
"Sou um sonhador; a minha vida real é tão reduzida que momentos como estes que agora vivo são para mim de tal modo preciosos que não poderei evitar de os reproduzir nos meus sonhos....Uma vez, cheguei mesmo a chorar por causa de uma recordação semelhante à que de si vou guardar." p.32
"O sonhador, para o definir pormenorizadamente, não é um homem, é uma espécie de criatura do gênero neutro. Aloja-se, na maior parte do tempo, num inacessível refúgio, como se pretendesse até ocultar-se da luz do dia, e, uma vez encolhido na sua toca, metido na sua casota como o caracol, ou pelo menos parece-se muito, neste aspecto, com esse curioso bichinho que é simultâneamente um animal e uma casa e que se chama tartaruga." p.45
"Sentimos que, por fim, essa inesgotável fantasia se fatiga, se esgota numa perpétua tensão, porque amadurecemos e superamos os nossos ideais antigos, os quais se desfazem em pó e se desmoronam, e, se não existe outra vida, é preciso construí-la mesmo com essas ruínas." p.66
"Que o teu céu seja luminoso, que seja claro e sereno o teu gentil sorriso e bendita sejas tu própria pelo minuto de felicidade e de alegria que proporcionaste a um coração solitário e grato.
Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?..."
DOSTOYEVSKY, Fyodor; LOURDES, Carlos trad. Noites brancas. [S.l.]: Publicações Europa-América, 1973. 140p

Inspiração após "noites brancas"

Estas palavras perderão-se no silêncio...mas penso que devo-lhe um pedido de perdão. Perdoe minha impaciência e insignificância. Escrevo em lugares públicos para pessoas (na maioria) desconhecidas, sobre assuntos mais desconhecidos ainda. Escrevo e crio confusão, mal entendidos, afinal não tenho maturidade suficiente, leitura suficiente, inteligência suficiente. ...
Sabedoria ! esta está guardada nas tábuas do meu coração, mas tenho que aprender a manejá-la.

Meus pronunciamentos talvez aborrecem, aborreçam. Brinco com as palavras como uma tola. Não consciente no agir, tento seguir o meu distinto coração e esqueço a distinção da palavra dita, que uma vez dita não tem como apagar, esqueço também as palavras que aprendi quando criança, que o coração é enganoso, mais do que todas as coisas, e incorrigivel. Os evangelhos trazem uma passagem de que o que sai do homem é o que o contamina. Pois do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a lacívia, a inveja, a blasfémia, a soberba, e a loucura. Todos estes males procedem de dentro, e contaminam o homem. E o livro de Provérbios 4:23 diz: "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, pois dele precedem as saídas da vida."
Devo, tenho, preciso cuidar deste coração, porque basta baixar guarda dele para que ele rapidamente apareça, transpareça, se aqueça com toda a sua vitalidade, com a vitalidade da vida.
E esqueça.
____________________________________________
Vejam como este tolo coração é! Ele acaba com os meus sonhos de mundo fantástico num segundo, ele empalidece meu mundo, ele sonha com uma utopia...ele me aproxima do zero, do vazio invisível, indivisível, indizível.........Estes dias mesmo andava pelas ruas de uma Santa cidade, era bem próximo de um Cruzamento, que me levaria depois para as bandas do lado Sul. Ia tagarelando comigo mesma e com mais duas pessoas, estava com meu chapéuzinho marrom e falava de banalidades cotidianas, comidas, perfumes, crianças, educação, viagens etc. como sempre me apetece falar nos momentos de vadiagem.... De repente por um instante julguei ter visto ele. Santo Deus, era ele! No mesmo instante saltei dos braços do meu companheiro (um dos que caminhavam comigo) e voei ao encontro deLe, queria arrastá-lo atrás de mim como Nastenka fez. E fiz, larguei meu companheiro no meio de uma vida e durante longas horas permaneci indo ao encontro de um enorme e doloroso silêncio. Talvez as noites brancas nunca existiram em minha vida, ou se existiram não existem mais. Será que um dia novamente existirão? Talvez me reste somente noites negras, escuras como bréu, felizmente posso ainda olhar as estrelas e tentar com a ajuda delas imaginar como seria o céu! Consigo ainda olhar meus passos rápidos e lentos que vão em direção a um lugar, procurando encontrar uma saída, além do céu, além da vida, além do sofrimento. Procurando encontrar algo novo, um motivo, um momento, um porquê, uma razão...razão...razão...., e não descansarei, enquanto meus pés pisarem este tórrido chão.

17 de out de 2008

EMPURRÃO

Vou esperar
quero dar todo o meu fogo
não parte dele

Que a inconsciência viva e vital que me inspira
e que é o meu Sou, ocupe tudo o que dou

Fixando-me em mim mesma
em um ponto brilhante qualquer
ilumine a terra, o negro do céu!

Não vou me encontrar,
porque sou inencontrável
mas posso te amar
com paixão controlável.

Tempo



Passam as horas, e eu estrada afora
criando sonhos prá poder chorar
por entre minhas mãos carrego minha vida,
a fé e a esperança, me fazem gozar
Dura menos, que minutos, instantes, segundos
meus sonhos rolaram escada abaixo
mais um vez, não tenho perdão
minha esperança caminha na contramão
A ousadia audaciosa vai atrás do coração
e a coragem na mesma direção
e mais uma vez me ferro. Triste decepção!
A falta de inteligência, coerência
discernimento, letramento
e a existência de um pueril contentamento
enoja, desaloja,
que tormento!
tudo vai jogado ao vento
e só permanece minhas emoções
e com elas meus sofrimento
no tempo.

15 de out de 2008

Precisando respirar poesia


Estou vagando por ruas empoiradas de Petersburgo....preciso respirar poesia, porque já estou me sentindo sufocada!

"As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos." Clarice Lispector

13 de out de 2008

Dostoiévski


Fase russa
"O sentido prático é difícil de criar, e não cai do céu aos trambolhões. E há quase duzentos anos que nós temos as costas voltadas a tudo quanto é pratico...Idéias sim, pululam (...) o desejo do bem existe, embora sob uma forma pueril, e honestidade também se encontra, apesar de que, visíveis ou encobertos, abundam os velhacos; mas quanto ao sentido prático, não existe de maneira nenhuma. Quanto ao senso prático, nada!" Dostoiévski. Crime e castigo. Porto Alegre: L&PM, 2007. pág. 166
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-Isso é um lugar-comum!
-Não, não é um lugar-comum! Por exemplo, se em outra época tivessem me dito: "Ama o teu próximo", e eu o tivesse amado, o que teria resultado disso? - continuou a dizer Piotr Pietróvitch, talvez com demasiada pressa. - O resultado seria eu ter rasgado o meu cafetã em dois, ter repartido com o próximo, e ficaríamos em dois remediados, como diz o ditado russo: "Persegue várias lebres ao mesmo tempo e ficarás sem nenhuma". Mas a ciência diz: "Antes de mais nada ama-te a ti próprio, porque tudo no mundo está baseado no interesse pessoal. Se amares a ti próprio farás os teus negócios como devem esr, e o teu cafetã permanecerá inteiro. O direito econômico nos diz que quanto mais negócios particulares existem na sociedade e, por assim dizer, mais cafetãs inteiros, tanto melhor para a firmeza dos seus fundamentos e tanto melhor para a gestão do negócio coletivo. Por isso, cuidar única e exclusivamente de mim é precisamente a maneira de também cuidar dos outros e fazer com que o meu próximo receba algo mais do que um cafetã partido em dois, e isso sem ser devido a mercês particulares e únicas, mas como consequência do progresso geral." pág. 167

11 de out de 2008

Viagem em círculo

Estou conversando a toa, rindo a toa e remexendo na velha estante da minha irmã. Encontrei alguns livros que doei e doeu. Vou recuperá-los! Estão ansiosos por serem relidos, estão empoeirados, largados, quase rejeitados....tadinhos não cometeram crime, mas estão quase de castigo...


Viagem em círculo

A esperança me obriga a caminhar em círculo
em torno do globo em torno de mim mesmo
em torno de uma mesa de jogo
A esperança é um círculo no zodíaco na ciranda
na roleta
na rosa do circo
na roda do moinho
amanhã recomeçO .

Ricardo, Cassiano. Jeremias sem-chorar. 3. ed. Rio de Janeiro. J. Olympio, 1976.

Metrópole

Hoje elas estão em uma metrópole!!!

A Nita já andou por todas as cidadezinhas das redondezas, passou por Porto Alegre procurando alguma atividade cultural interessante, andou por Canoas procurando o Museu da Ulbra e teimando que ficava próximo ao Bourboun. Todos diziam: - O museu da Ulbra é na Ulbra, oras!

Teimosa que só ela. Não acreditava!!! Foi até São Leopoldo na Unisinos, Gravataí na Fabi, Sapucaia visitar os parentes, Viamão visitar a Ana e Esteio visualizar o local da Expointer!!! Até no Mac Donald comeu, argh!!! Ela não pensa, ela não pensa, garota esquizofrênica!

Já a outra, limitou-se a procurar uns livros velhos na estante da irmã, está contente, mas ansiosa para chegar em casa e retomar a leitura do clássico "Crime e castigo" de Dostoiévski.

Dos livros velhos não tão velhos:

Língua
Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
(Caetano Veloso)

Bem o pessoal anda dizendo por aqui que não são só duas, mas 7 !!!
porque depois que se sai daquele lugar, vem 7 se alojar !!!!

9 de out de 2008

Bem, comecei uma nova fase da minha vida agora, a cada dia começo tudo novamente, mas a noite é sempre a mesma chorosa que volta para casa olhando as estrelas, sonhando e se angustiando. E como sempre, na leitura, hááá na leitura e somente nela, encontrando alívio para suas perguntas, mágoa e dor.
Estou lendo "Recordações da casa dos mortos", uma espécie de ficção biográfica de Dostoiévski quando esteve exilado na Sibéria, e encontrei a seguinte citação que por acaso me impressionou : "Achei vergonhoso e absurdo ter importunado um homem cujo principal cuidado consistia em se afastar o mais possível.... Mas a tolice estava feita. (...) Portanto, apesar de tudo, aquele homem soubera fazer-se amar!" Prefácio de Recordações da casa dos mortos. Dostoiévski.
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"os sofrimentos morais são muitos mais duros de suportar do que os físicos. O homem atrasado, ao entrar para o presídio, se vê num meio às vezes superior ao que vivia antes. Naturalmente se vê privado de muita coisa: da sua terra, da sua família, de tudo quanto lhe era mais querido: mais o meio é o mesmo. Já o homem culto, que a lei puniu com o mesmo castigo, se ressente de muito mais coisas; vê-se tolhido de todos os seus hábitos e necessidades, tem de se afazer a um meio que repugna, tem de aprender a respirar uma atmosfera muito outra... É como peixe jogado na areia... E para ele o castigo, que a lei considera igual para todos, se torna um tormento dez vezes exacerbado. Esta é a verdade! Mesmo sem se falar no sacrifício dos hábitos materiais.” Recordações da casa dos mortos.
"O eterno leitor da Bíblia de que já falei, aquele que enlouqueceu e, um dia, atirou um tijolo ao major, devia igualmente ser um daqueles a quem toda a esperança abandonara. Como é impossível viver sem esperança, procurara a morte por meio desse martírio voluntário. Declarou, aliás, que se atirara ao major sem ódio, apenas com o desejo de sofrer. E quem sabe que trabalho se desenvolvera, pouco a pouco, na sua alma, para chegar àquilo? Nenhum homem pode viver sem um objetivo, que se esforça por alcançar. Se já não tem objetivo nem esperança, a angústia transforma-o num monstro....O nosso objetivo, o objetivo de nós todos, era a libertação, a saída do presídio..." Recordações da casa dos mortos p. 245.

5 de out de 2008

Final de semana

Num final de semana qualquer, em um dia de eleição qualquer em que serão eleitos os "eleitos" aconteceram...sonhos que se pode ter.

- onde grãos de areia se tornaram pérolas nas mãos de alguns, enquanto nas mãos de outros não passavam de apenas grãos de areia;

- onde havia uma linda sala verde chaveada com chave de ouro, com cortinas amarelas e no canto um lindo, enorme e impecável sofá branco, nunca usado esperando uma visita ilustre chegar a qualquer instante que nunca chega....;

- E no final da noite, entre a estrela d'alva e o amanhecer uma busca frenética emaranhada de fios de prata procurando desesperadamente conectar suas origens (depois de provavelmente inconscientes algazarras)....mas agora profundamente emaranhados e fundidos com outros não encontrando sua verdadeira origem e criando no mundo um mar de enganos e confusões.