29 de jan de 2013

Leitura de férias

Minha primeira leitura nas férias, foi um livro do Paulo Leminsk, que retirei do "Bondinho da Leitura" e com autorização, li em um banco da praça na Rua das Flores, em Curitiba. Êita vida, bem da boa. A leitura durou aproximadamente meia hora. O título ? não lembro!  O Zé ficou emburrado.

Depois li obras de arte, visitei túneis do rock, li contos adaptados em bosques, comi à beça,  roubei canecos honestamente e finalmente já em Santa Cruz, termino a leitura da minha segunda leitura nas férias:
*** Reli, em minha quarta leitura nas férias Lavoura Arcaica de NASSAR, Raduan.
http://4.bp.blogspot.com/-RhCXX9BkzzY/T1RWcvxbNsI/AAAAAAAAAzs/78eVnAr2-iY/s1600/Captura%2Bde%2Btela%2B2012-03-05%2B%25C3%25A0s%2B02.56.29.pngE minha, quinta leitura nas férias foi Guia politicamente incorreto da filosofia: ensaio de ironia, de Luiz Felipe Pondé.
Minha, sexta leitura nas férias, ficou oscilando entre "The Bhagavad Gita", leitura iniciada há meses e até agora interminada! vários artigos de três revistas de caráter científico, partes do "Index de livros proibidos" de Henry Spencer Ashbee, leituras de Jornais, Diários, etc. Agora, retomo mais um livro: desta vez do Mia Couto, autor Moçambicano, um livro que recebi de presente da querida Samara Alves. Bons amigos dão de presente bons livros! Eis minha sétima leitura nas férias:
Minha oitava leitura nas férias, será mesclada por Leonardo Boff, e Index dos livros proibidos, uma ou outra poesia, tudo isto me preparando para o "prato principal" Kant, Foucault e Arthur Schopenhauer.


Minha nona leitura nas férias, preparação à inicicação Foucaultiana, começou a me interessar sobremaneira. Trata-se do seguinte livro: VEIGA NETO, Alfredo José da. Foucault & a educação. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. 191 p. (Pensadores & educação ; 5).

"Os grandes filósofos sistemáticos são construtivos e oferecem argumentos. Os grandes filósofos edificantes são reativos e oferecem sátiras, paródias, aforismos. Eles são intencionalmente periféricos. Os grandes filósofos sistemáticos, como os grandes cientistas, constroem para a eternidade. Os grandes filósofos edificantes destroem para o bem de sua própria geração. Os filósofos sistemáticos querem colocar o seu tema no caminho seguro de uma Ciência. Os filósofos edificantes querem manter o espaço aberto para a sensação de admiração que os poetas podem por vezes causar - admiração por haver algo de novo debaixo do sol, algo que não é uma representação exata do que já ali estava, algo que (pelo menos no momento) não pode ser explicado e que mal pode ser descrito." Rorty, 1988, p. 286. 

Minha décima leitura nas férias está oscilando, ora entre Vigiar e Punir de Michael Foucault, ora entre Kant, da coleção Os Pensadores.
"Um déspota imbecil pode coagir escravos com correntes de ferro; mas um verdadeiro político os amarra bem mais fortemente com a corrente de suas próprias ideias; é no plano fixo da razão que ele ata a primeira ponta; laço tanto mais forte quanto ignoramos sua tessitura e pensamos que é obra nossa; o desespero e o tempo roem os laços de ferro e de aço, mas são impotentes contra a união habitual das ideias, apenas conseguem estreitá-las ainda mais; e sobre as fibras moles do cérebro funda-se a base inabalável dos mais sólidos impérios." SERVAN.

Minha décima primeira leitura nas férias, foi "Um copo de cólera" de Raduan Nassar.
"(...) Te digo somente que ninguém dirige aquele que Deus extravia! (...)"  Nassar. p. 58-9

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Fiz uma promessa de ler 30 livros nas férias, não consegui, então hoje, tendo em vista o iminente retorno ás aulas, decidi selecionar 'criteriosamente' os livros mais finos, menores, mais fáceis de ler, para chegar mais perto à minha obstinada intenção. Eis algumas seleções das leituras que acabo de fazer:

Clareira

'No bosque a clareira
lugar de denúncia,
os deuses se despem
aos olhos dos homens'.Paviani. 



Décima segunda leitura nas férias: PAVIANI, Jayme. Onze horas úmidas. Porto Alegre: A Nação, 1974. 43 p.

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Inquérito



'Perante Sua Excelência

Aqui se firmam

Pedindo divórcio

Deste mundo cruel,

José Maria Aparecido Americano

Casado, Nacional,
Filho do Mundo sob o trópico do Câncer
E a parte litigiante
Maria de Assunción Cuevas,
Que de ora em dianta
Será denominada:
Saudade!' Blauen.
Décima terceira leitura nas férias:VON BLAUEN, Artifex. Cancyoneiro americano. Curitiba: [s.n.], [1977]. 18 p.
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I
'Recolha em cada pedaço de fala
de silêncio
ou parafrasear cantos da casa,
 inteira (...)' Tessler.
Décima quarta leitura nas férias: TESSLER, Elida; LIMA, Manoel Ricardo de. Falas inacabadas: objetos e um poema. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2000. ca. 20 p.
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'Andando no céu
A lua cheia contempla a Terra
e entra nas nuvens'. Masuda
Décima quinta leitura nas férias: MASUDA, H.; ODA, Teruko; ARRUDA, Eunice. Haicai: a poesia do Kigô. São Paulo: Aliança Cultural Brasil-Japão, 1995. 114 p.
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Bilhete

'dize-lhe que já fui.
comprei o bonde
e antecipei.

viver é angústia
esta sim eterna.
porque eu ficaria?

comprei o bonde
e me assanhei.

deixei na bolsa a foto
algum trocado
e um beijo saudoso.

comprei o bonde
e embarquei

feliz.' Souza.
Décima sexta leitura nas férias: SOUZA, Raquel Rolando. Primeira pessoa. [S.l.: s.n.], 1986. 40 p.
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"Amar é um elo entre o azul e o amarelo". Leminski

Décima sétima leitura nas férias: LEMINSKI, Paulo. Paulo Leminski. 2. ed. São Paulo: Global, 1996. 212 p. (Melhores poemas ; 33)
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'Eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha' Leminski
Décima oitavva leitura nas férias: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. 151 p.
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'Tudo me foi dado
Nada me foi tirado
O que um dia foi meu
nunca vai ser passado'. Leminski
Décima nona leitura nas férias: LEMINSKI, Paulo; SUPLICY, João. Winterverno. São Paulo:Iluminuras,2001.ca.50 p.
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'depois de muito meditar
resolvi editar
tudo o que o coração
me ditar' Leminski
Vigésima leitura nas fériasLEMINSKI, Paulo. Ex-estranho. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1996. 76 p.
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Intrusão

"O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente..."Quintana.
Vigésima primeira leitura nas férias: QUINTANA, Mário. Caderno H. 4. ed., rev. Porto Alegre: Globo, 1983. 183 p.

Estrada de ferro Morretes Paranaguá (1890)


Tela Morretense de Lúcio Borges

Morretes dos dias de canícula
De ardente sol abrasador
Sol pendurado na celeste gambiarra
Ativa os teus atores
No prado e na serra
Ao som do canto extridente
Da cigarra

Mas á tardinha
O vento soprando
Da banda do mar
Transforma o mormaço
Em brisa marinha
Pondo o sabiá altaneiro a cantar

E o Nhundiaquara morno e sereno
A passar entre lírios, jasmins
Outras vezes encolhendo-se todo
Em poços profundos
Sôfrego, guarda os brancos lírios
No teu escuro e misterioso âmago

E quando a natureza em fúria
De nuvens o Marumbi envolve
Em catadupa a água corre
Em furor o seu leito cobre
Lavando os teus belos lírios
Desfalecidos pelo terror

Cada vez mais para longe...
Longe...
Para o mar!

25 de jan de 2013

Utopia: "Se as coisas são inatingíveis...ora!"


"Pedi a benção a Krishna / e o Cristo me abençoou. /
 Orei ao Cristo / E foi Buda que me atendeu. /
Chamei por Buda / E foi Krishna que me respondeu." Hermógenes
Fui beber, pensando em Lavoura Arcaica ..."Era uma vez um faminto"
"Um mapa do mundo que não inclua a utopia não deve nem ser olhado, pois ignora o único território em que a humanidade sempre atraca, partindo em seguida para uma terra ainda melhor." Oscar Wilde

19 de jan de 2013

O Tempo in Lavoura Arcaica - Raduan Nassar

Em busca de uma ‘ordem própria’ André transgride, ao contrapor a ordem do pai e o caos da mãe, a inflexibilidade paterna diante do afeto materno, a razão e a paixão, tristeza e alegria, claro e escuro, público e privado, sagrado e profano, amor e cólera, família e natureza, arrependimento e esperança, galho da direita “desenvolvimento espontâneo do tronco” e galho da esquerda “estigma de uma cicatriz”. É a dualidade presente. É a tragédia. O livro é belíssimo o filme é singular. 

Uma frase que destaco: “estamos indo sempre para casa”.

Um capítulo que destaco: 9 - Raduan Nassar
“Que rostos mais coalhados, nossos rostos adolescentes em volta daquela mesa: o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra sua ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos distraindo tanto como os sinos graves marcando as horas: ”O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terra largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa; e ninguém em nossa casa há de colocar nunca o carro à frente dos bois: colocar o carro à frente dos bois é o mesmo que retirar a quantidade de tempo que um empreendimento exige; e ninguém ainda em nossa casa há de começar nunca as coisas pelo teto: começar as coisas pelo teto é o mesmo que eliminar o tempo que se levaria para erguer os alicerces e as paredes de uma casa; aquele que exorbita no uso do tempo, precipitando-se de modo afoito, cheio de pressa e ansiedade, não será jamais recompensado, pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia; mas fica a salvo do malogro e livre da decepção quem alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção ágil ao mais sutil desnível; são sábias as mãos rudes do peixeiro pesando sua pesca de cheiro forte: firmes, controladas, arrancam de dois pratos pendentes, através do cálculo conciso, o repouso absoluto, a imobilidade e sua perfeição; só chega a este raro resultado aquele que não deixa que um tremor maligno tome conta de suas mãos, e nem que esse tremor suba corrompendo a santa força dos braços, e nem circule e se estenda pelas áreas limpas do corpo, e nem intumesça de pestilências a cabeça, cobrindo os olhos de alvoroço e muitas trevas; não é na bigorna que calçamos os estribos, nem é inflamável a fibra com que tecemos as tranças de nossas rédeas, pode responder a que parte vai quem monta, por que é célere, um potro xucro? o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, e nenhum entre nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e recriar o tempo; não se profana impunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo; ai daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhe turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro, afinal, que força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua poeira? é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há de cruzar os brancos quando existe o irmão para socorrer; caprichoso como uma criança, não se deve contudo retrair-se no trato do tempo, bastando que sejamos humildes e dóceis diante de sua vontade, abstendo-nos de agir quando ele exigir de nós a contemplação, e só agirmos quando ele exigir de nós a ação, que o tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens triste, o consolo aos desamparado, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranquilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; é através da paciência que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal, inesgotável, sorvendo até a exaustão o caldo contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos, construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um reino penoso de expectativas e suas dores; na doçura da velhice está a sabedoria, e, nesta mesa, na cadeira vazia da outra cabeceira, está o exemplo: é na memória do avô que dormem nossas raízes, no ancião que se alimentava de água e sal para nos prover de um verbo limpo, no ancião cujo asseio mineral do pensamento não se perturbava nunca com as convulsões da natureza; nenhum entre nós há de apagar da memória a formosa senilidade dos seus traços; nenhum entre nós há de apagar da memória sua descarnada discrição ao ruminar o tempo em suas andanças pela casa; nenhum entre nós há de apagar da memória suas delicadas botinas de pelica, o ranger das tábuas nos corredores, menos ainda os passos compassados, vagarosos, que só se detinham quando o avô, com dois dedos no bolso do colete, puxava suavemente o relógio até a palma, deitando, como quem ergue uma prece, o olhar calmo sobre as horas; cultivada com zelo pelos nossos ancestrais, a paciência há de ser a primeira lei desta casa, a viga austera que faz o suporte das nossas adversidades e o suporte das nossas esperas, por isso é que digo que não há lugar para a blasfêmia em nossa casa, nem pelo dia feliz que custa a vir, nem pelo dia funesto que súbito se precipita, nem pelas chuvas que tardam mas sempre vêm, nem pelas secas bravas que incendeiam nossas colheitas; não haverá blasfêmia por ocasião de outros reveses, se as crias não vingam, se a rês definha, se os ovos goram, se os frutos mirram, se a terra lerda, se a semente não germina, se as espigas não embucham, se o cacho tomba, se o milho não grana, se os grãos caruncham, se a lavoura pragueja, se se fazem pecas as plantações, se desabam sobre os campos as nuvens vorazes dos gafanhotos, se raiva a tempestade devastadora sobre o trabalho da família; e quando acontece um dia de um sopro pestilento, vazando nossos limites tão bem vedados, chegar até as cercanias da moradia, insinuando-se sorrateiramente pelas frestas das nossas portas e janelas, alcançando um membro desprevenido da família, mão alguma em nossa casa há de fechar-se em punho contra o irmão acometido: os olhos de cada um, mais doces do que alguma vez já foram, serão para o irmão exasperado, e a mão benigna de cada um será para este irmão que necessita dela, e o olfato de cada um será para respirar, deste irmão, seu cheiro virulento, e a brandura do coração de cada um, para ungir sua ferida, e os lábios para beijar ternamente seus cabelos transtornados, que o amor na família é a suprema forma da paciência; o pai e a mãe, os pais e os filhos, o irmão e a irmã: na união da família está o acabamento dos nossos princípios; e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhes amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como são se questionam aos puros planos das planícies as trilhas tortuosas, debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao cocho, o gado sempre vai ao poço; hão de ser esses, no seu fundamento, os modos da família: baldrames bem travados, paredes bem amarradas, um teto bem suportado; a paciência é a virtude das virtudes, não é sábio quem desespera, é insensato quem não se submete.” E o pai à cabeceira fez a pausa de costume, curta, densa, para que medíssemos em silêncio a majestade rústica da sua postura: o peito de madeira debaixo de um algodão grosso e limpo, o pescoço sólido sustentando uma cabeça grave, e as mãos de dorso largo prendendo firmes a quina da mesa como se prendessem a barra de um púlpito; e aproximando depois o bico de luz que deitava um lastro de cobre mais intenso em sua testa, e abrindo com os dedos maciços a velha brochura, onde ele, numa caligrafia grande, angulosa, dura, trazia textos compilados, o pai, ao ler, não perdia nunca a solenidade: “Era uma vez um faminto.”
                                                                                                                                    (Lavoura Arcaica)

1 de jan de 2013

Imagens de Pelotas - dezembro de 2012




Escola São Francisco de Assis (cursei Ensino Fundamental-séries finais e Ensino Médio)
No calçadão
A porta do paraíso: BPP

"As Nereidas", na Praça Coronel Pedro Osório

Lavoura arcaica

"Toda a ordem traz uma semente de desordem e a clareza uma semente de obscuridade."
"A vítima ruidosa que aprova o seu opressor se faz duas vezes prisioneira."
"...Só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas".  
"Estamos indo sempre para a casa".