12 de set de 2012

Dormindo com filósofos

Hoje, aproveitarei que meu marido foi viajar e dormirei com filósofos.
Venha, Arquíloco!
Entrai pelas minhas portas, Teógnis!
Seja bem-vindo, Píndaro!

Venham todos ao meu humilde lar, pois quero ouvi-los, secretamente.
***
O silêncio deles é alarmante,
(as imagens, estarrecedoras,
um cheiro de ácido oleico)
uma poeira entra por minhas narinas.
Não consigo parar de tossir.
O pó fica impregnado no ambiente,
as palavras saltam num silêncio cortante:

"E não te esqueças, meu coração,
que as coisas humanas apenas
mudanças incertas são." Arquíloco

"Choremos a juventude e a velhice também,
pois a primeira foge e a segunda sempre vem." Teógnis

"A glória dos mortais num só dia cresce,
Mas basta um só dia, contrário e funesto,
para que o destino, impiedoso, num gesto
a lance por terra e ela, súbito, fenece." Píndaro
***
Não ficaram comigo muito tempo, pois furtivamente,
sem a menor cerimônia, mesmo não acessando mais
regularmente o Orkut, escapei num átimo para o Facebook.
***
Ficaram chocados, estavam indo embora,
cabisbaixos, em linha reta andando,
quando ouviram um poeta brasileiro
andando em círculos e lamentando...

"Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho
.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.

Como a vida é forte
em suas algemas
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.

Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.

Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!"

Carlos Drummond 

No final, tudo se tranformará em pó, eles e eu.
só as palavras cortarão o silêncio cortante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário