16 de jan. de 2009

A blasfêmia libertadora de Jung

"C.G. Jung num episódio narrado em suas memórias, ocorrido quando tinha 12 anos: "Num belo dia de verão do mesmo ano (1887), voltando do colégio ao meio-dia, passei pela praça da catedral. O céu estava maravilhosamente azul, o sol brilhava em toda sua luminosidade. O teto da catedral cintilava ao sol que acendia chispas nas telhas novas e brilhantes. Sentia-me deslumbrado pela beleza desse espetáculo e pensava: "O mundo é belo, a igreja é bela, e Deus, que criou tudo isso, está sentado lá no alto, no céu azul, num trono de ouro...".

Neste momento senti uma sensação de asfixia. Estava como que paralisado e me esforçava para não continuar a pensar! Está para acontecer algo de terrível. Não quero pensar nisso; não quero de maneira alguma me aproximar. Por quê? Porque se não você cometerá o maior dos pecados. Qual é o maior dos pecados? Um assassínio? Não! Não pode ser isso. O maior dos pecados é aquele que se comete contra o Espírito Santo: para o qual não há perdão.

Durante dias, Jung remoeu uma crise terrível de consciência, em que ao mesmo tempo esforçava-se para concluir aquela visão e lutava para reprimi-la, com medo de estar cometendo a mais grave das infâmias. Depois de um enorme conflito e de muitas racionalizações, ele resolveu deixar aquele pensamento proibido emergir por inteiro em sua consciência:

Reuni toda a coragem, como se fosse saltar nas chamas do Inferno e deixei o pensamento emergir: diante dos meus olhos ergue-se a bela catedral e, em cima, o céu azul. Deus está sentado em seu trono de ouro, muito alto acima do mundo e, debaixo do trono, um enorme excremento cai sobre o teto novo e colorido da igreja; esta se despedaça e os muros desabam.

Então era isto! Senti um alívio imenso e uma libertação indescritível: em lugar da danação esperada, a graça descera sobre mim e, com ela, uma felicidade indizível, como jamais conhecera." pág.79-80

TAVARES, Bráulio. O anjo exterminador. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. 185p.

Ai ai ai ai, afinal como se diz ai, em outras línguas???

Nenhum comentário:

Postar um comentário