19 de ago de 2008

Mito

Hoje, passava das 14 horas e resolvi dormir!!!!
Consegue-se dormir em um sistema capitalista em plena tarde? Bem a 'sestia' depois do meio-dia me fez bem.....hááá como me fez bem.
Acordei sobressaltada 2 horas depois, ao meu lado Sabato esperava resistente, imponente.
Abri o livro e re-comecei a leitura....
"Mas como podem ser uma falsidade as grandes verdades que revelam o coração do homem por meio de um mito ou de uma obra de arte? Se as desventuras e façanhas daquele cavalheiro maltrapilho de La Mancha ainda continuam a nos comover, é porque uma coisa tão risível como sua luta contra os moinhos de vento revela uma desesperada verdade da condição humana. A mesma coisa acontece com os sonhos: deles se pode dizer qualquer coisa, menos que sejam mentira. Mas ao supervalorizar o racional, desprezou-se tudo aquilo que a lógica não conseguia explicar. E acaso são explicáveis os grandes valores inerentes à condição humana, como a beleza, a verdade, a solidariedade ou a coragem? O mito, assim como a arte, exprime um tipo de realidade da única forma como ela pode ser expressa. É essencialmente avesso a qualquer tentativa de racionalização, e sua verdade paradoxal desafia todas as categorias da lógia aristotélica ou dialética. Mediante essas profundas manifestações do espírito, o homem toca os fundamentos últimos de sua condição e consegue que o mundo em que vive adquira o sentido do qual carece. Por isso mesmo, todos os filósofos e artistas, sempre que quiseram atingir o absoluto, tiveram de recorrer a alguma modalidade do mito ou da poesia. Jasper sustentou que os grandes dramaturgos da Antiguidade vertiam em suas obras um saber trágico, que não apenas emocionava os espectadores como também os transformava, e por isso os dramaturgos se tornavam profetas do ethos de seu povo. E o próprio Sarte, no esforço de revelar o drama dos franceses sob o domínio nazista, escreve As moscas, que, em essência, não é senão uma adaptação do antigo drama de Ésquilo, Orestes, aquele herói trágico que luta corajosamente pela liberdade.
O momento de maior empobrecimento de uma cultura é esse em que o mito começa a ser popularmente definido como uma falsidade. Foi o que aconteceu na Grécia clássica. Depois da derrocada dos antigos relatos, Lucrécio conta ter visto "corações aflitos em todos os lares; acossada por incessantes remorsos, a mente não encontrava alívio e era forçada a se descarregar em recalcitrantes lamentações". Assim como uma casa cujos alicerces se desmancham, as sociedades começam a desmoronar quando seus mitos perdem a riqueza e o valor."
Sábato, Ernesto. A resistência. pág. 42-43.

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