21 de out de 2008

Jôiévski devaneando com Os irmãos Karamázov!



"Porque a felicidade é o objetivo do homem"... Entretanto, onde está a felicidade? Quem pode dizer-se feliz? p. 66

Lembro de um texto Bíblico: "Felizes os que têm o coração puro, pois eles verão a Deus”.

"Acontece que, dessa maneira, a sociedade não fica de modo algum preservada, porque, embora o membro nocivo seja mecanicamente cortado e mandado para longe, fora de vista, outro criminoso surgiu em seu lugar, talvez mesmo dois." p. 75

Lembro do menino, em Falcão: Os meninos do tráfico: "Se eu morrer nasce outro. Melhor ou pior que eu."

"Se alguma coisa ainda protege a sociedade, mesmo em nossos dias, regenera o próprio criminoso e faz dele outro homem, ainda é unicamente a lei do Cristo que se manifesta pela voz de sua própria consciência." p.75

Dráuzio Varela, faz um comentário similar em Estação Carandiru...

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Vertida diretamente do russo, por Paulo Bezerra, chega ás livrarias Os irmãos Karamzóv, onde estão reunidas as principais vertentes da obra do escritor Dostoiévski.

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A edição que estou lendo tem, uma bela introdução, feita por Otto Maria Carpeaux, nela o autor propõe uma interpretação dialética ao romance, vejamos: "O romance Os irmãos Karamázov passa-se em dois níveis diferentes. Embaixo, a Rússia dos Karamázov, envolvida nas névoas da paixão sensual desenfreada, das bebedeiras e orgias, do crime mascarado e da justiça cega, das filosofias subversivas e das visões satânicas; o diabo aparece em pessoa para conversar com Ivan, que, por sua vez, dirige a mão do parricida. Em cima, o convento, luminoso como um reflexo de glória celeste. Essa dicotomia representa a visão dostoievskiana do futuro: o cristianismo salavará a Rússia (não o da Igreja de Roma, porém); e a Rússia fará o cristianismo vencer no mundo. Eis a mensagem de Dostoiévski, que ele lança contra a mensagem escondida na filosofia de Ivan e de todos os Ivans que esperam que a revolução salvará a Rússia e que a Rússia salvará o mundo. Pelo seu romance, afirma Dostoiévski que a primeira tese, a sua, é evangélica e que a outra é satânica. Mas não escapa à inteligência insubornável do escritor o fato de que as duas teses são, no fundo, idênticas: basta trocar um substantivo para transformar uma na outra."

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Em Dostoiévski e a consciência cristã, Pierre Pascal pergunta o seguinte: "Mas este paraíso na terra, que Dostoiévski não define de outra forma, será ele cristão? Os autores que trataram dessa noção em Dostoiévski vêem nela uma sobrevivência do antigo entusiasmo dele pelo 'socialismo utópico' ."

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Aurora F. Bernardini, professora de pós-graduação em Literatura Russa da USP, escreve na revista Cult de nov. de 2008, o que segue: "Bem, dentro da polifonia dos romances dostoievskianos, a fala que mais impressiona o leitor, no livro, é a do "herético" Ivan Karamázov, embora - quem sabe - a fala do autor se escondesse atrás das palavras do puro Aliocha. Aí, como provou Bakhtin, está a revolução literária do autor Dostoiévski - não é a voz dele a que necessariamente se impõe. Ivan das torturas infligidas às crianças, Ivan que recusa o bilhete desse mundo de Deus, Ivan que compõe A lenda do grande inquisidor. Ainda mais paradoxal, as sementes de trigo da epígrafe produziram fruto sim, mas curiosamente, no sentido oposto ao que Dostoiévski esperava. O 'nosso pobre povo' quer o Milagre, o Mistério e a Autoridade em que se apoiar, enquanto o deus Capitalismo - o que o narrador execrava na figura do velho pai hedonista, Fiódor Pávlovitch Karamázov - continua regendo os destinos do mundo, até sua utópica derrocada."

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