4 de fev de 2009

Maiakóvski


Vladímir Maiakóvski matou-se no dia 14 de abril de 1930 e deixou um bilhete.
"A todos
"De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso.
"Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída.
"Lília, ame-me.
"Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.
"Caso torne a vida delas suportável, obrigado.
"Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer. ´Como dizem: caso encerrado,
O barco do amor
espatifou-se na rotina.
Acertei as contas com a vida
inútil a lista
de dores,
desgraças
e mágoas mútuas.´
Felicidade para quem fica.
Óssip Brik, Lília e Maiakóvski, 1929

"Estes moralismos estúpidos, esta tentativa de esconder a verdade das relações humanas, fazem com que se espalhem versões absurdas. Dizem por aí que vivíamos em mènage à trois, põe a culpa toda em mim, como se houvesse culpa em casos como este! Casei com Óssip Brik por amor....passei a ser mulher de Maiakóvski, mas isto não era motivo para deixarmos de morar na mesma casa. Tanto Óssip como Maiakóvski eram criaturas superiores que viam com a maior naturalidade estes problemas de amor e sexo. Ambos eram grandes admiradores do romance Que fazer? de Tchernichévski. Hoje em dia, pouca gente lê este romance (de 1863), dizem que é chato, mas não é verdade, chatos são os que dizem isto. É uma pena.
Você leu?"

Lília - ou Lili - Brik, a grande figura feminina na vida de Maiakóvski, suicidou-se aos 86 anos.

MAIAKÓVSKI
Entrei na barbearia e disse, sem espera:
"Por gentileza, penteie-me as orelhas."
O meloso barbeiro ficou cheio de abelhas,
seu rosto se alongou com uma pêra.
"Mentecapto!
Palhaço!" —
saltaram as palavras.
Insultos relincharam pelo espaço,
e l-o-o-o-o-ngamente
ouviu-se o rinchavelho
de uma cabeça que brotou por entre a gente
como um rabanete velho.
(O poema é de 1913, quatro anos antes da Revolução Russa de 1917. Mas a burocracia soviética, que queria poemas úteis à causa, podia compreender a sátira de Maiakóvski? Não, certamente.)

Hino ao crítico
Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no , com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil com um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhe de leve os tornozelos loucos.
Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Púchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa brancos nos artigos?
(poema de 1915)
Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman
A plenos pulmões
Caros camaradas futuros! Revolvendo a merda fóssil de agora, perscrutando estes dias escuros, talvez perguntareis por mim. Ora, começará vosso homem de ciência, afogando os porquês num banho de sabença,
conta-se que outrora um férvido cantor a água sem fervura combateu com fervor. Professor, jogue fora as lentes-bicicleta! A mim cabe falar de mim de minha era. Eu — incinerador, eu — sanitarista, a revolução me convoca e me alista. Troco pelo "front" a horticultura airosa da poesia — fêmea caprichosa. Ela ajardina o jardim virgem vargem sombra alfrombra. "É assim o jardim de jasmim, o jardim de jasmim do alfenim". Este verte versos feito regador, aquele os baba, boca em babador, — bonifrates encapelados, descabelados vates — entendê-los, ao diabo!, quem há-de... Quarentena é inútil contra eles — mandolinam por detrás das paredes: "Ta-ran-tin, ta-ran-tin, Ta-ran-ten-n-n..." (...) [Dezembro, 1929/janeiro, 1930]

Eduardo Alves da Costa No caminho, com Maiakóvski.

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